A atriz e produtora Mayara Mariotto estreia amanhã, 28 de fevereiro, o espetáculo “Pietà – Um Fractal de Memórias”, na SP Escola de Teatro. Capa desta edição digital da Conexão Magazine, Mayara consolida seu retorno definitivo às artes após uma trajetória que incluiu a formação em Direito e vivência no exterior. À frente da produtora Girassol em Cena, ela assume um papel importante na cena cultural paulistana, unindo a visão estratégica de mercado à entrega artística necessária para dar vida a temas de profunda relevância social.
Na montagem de “Pietà – Um Fractal de Memórias”, ambientada nos anos 80, Mayara interpreta Carol, uma jovem solar e apaixonada pela vida que se vê diante do desafio de conviver com o isolamento e a depressão de seu parceiro. A peça utiliza fragmentos de memórias para discutir saúde mental e traumas familiares, destacando a coragem de Carol ao priorizar seu amor-próprio e sobrevivência emocional. Para a atriz, a obra é um compromisso social da arte, provocando o público a refletir sobre a importância da escuta ativa e o combate à normalização de situações traumáticas.
Este espetáculo marca a primeira grande incursão profissional de Mayara após sua formação, servindo como um divisor de águas em sua carreira. Além da atuação, sua empresa, a Girassol em Cena, assina como produtora associada, reforçando seu posicionamento de autonomia no setor cultural. Essa visão empreendedora já projeta o futuro da artista para 2026 e 2027, após uma recente negociação em Buenos Aires que garantiu os direitos de produções argentinas premiadas para o mercado brasileiro.
Nesta entrevista, Mayara detalha sobre a estreia de amanhã e a densidade de interpretar uma personagem que lida com questões de saúde mental. Ela compartilha como é dividir o palco com o elenco, a transição da assistência de produção para o elenco de novos projetos e sua visão sobre a “dor e a delícia” de ser artista. Uma conversa sobre a responsabilidade do ator e a convicção de que o teatro é, acima de tudo, um território vital de verdade e sobrevivência.
Confira agora a entrevista exclusiva:
Para começar, gostaríamos muito de saber como surgiu a oportunidade de estar no elenco de “Pietà – Um Fractal de Memórias” e também entrar com sua produtora Girassol em Cena, como uma das produtoras associadas do projeto. Conta um pouco sobre como essa porta se abriu?
Pietà surgiu no meu caminho através do diretor de produção, Fábio Câmara que, junto com o Dan Rosseto acreditaram que eu possuía o perfil estético que a personagem da Carol possui. A Carol é uma personagem energética, atlética, bonita e jovem. Então, o Dan que, além de ser o ator que dá vida ao protagonista Pedro, e também é realizador do projeto junto com o Fábio e com o diretor, Paulo Gabriel, pensou em mim para o papel, sugeriu para o produtor e depois sugeriram para o diretor.
Entrar também como produtora associada possibilita que consigamos realizar o espetáculo mesmo sem arrecadação de fundos e patrocínios. O caminho da arte, no Brasil, e o custo para realizar espetáculos, faz com que as opções sejam limitadas: ou você consegue um edital estadual/federal ou de alguma empresa. Se não, você pode cadastrar o seu projeto nas Leis de Incentivo, ser aprovado e aí prospectar empresas para conseguir o patrocínio, ou você faz do próprio bolso. Pietà veio através da última opção, a qual praticamente todos os envolvidos são também realizadores.

Mayara, você descreve a Carol como uma personagem ‘solar’ que toma uma decisão de afastamento por amor-próprio. Considerando que nos anos 80 o papel da mulher era quase sempre o de ‘cuidadora’ silenciada, como foi para você construir essa coragem da personagem de dizer ‘não’ à autodestruição do parceiro, sabendo que ela enfrentaria o julgamento daquela época?
A Carol carrega dentro de si uma vontade de viver muito bonita. É uma mulher apaixonante e apaixonada pela vida, e ela quer viver. Carol teria, em 1980, entre seus 25-30 anos, então teria nascido entre os anos 1950 – 1960, vinda de uma geração ainda mais restrita que a dela. É daquela geração de mulheres que viu suas mães e avós adoecerem em relacionamentos, em sua maioria, de submissão da mulher. As mulheres cujo único papel possível, e sem outra opção, seria ser mãe de família e esposa (o que não é errado por si só, acredito apenas que tem que ser uma escolha feita de forma livre).
Então, Carol, que nasceu vendo tudo isso, passa no vestibular, consegue que a família a autorize a ir estudar na USP, vinda do interior para a cidade grande, que é São Paulo, é uma desbravadora desde seu nascimento.
Ela amou muito o Pedro, que foi seu primeiro amor, mas ao ter que assisti-lo se afundar na bebida, não dar atenção pra ela, não se abrir emocionalmente e também se afundar cada vez mais na depressão, fez com que ela, antes que fosse tarde demais, desse seu grito de liberdade. Essa força que ela teve, foi para mim algo de buscar na minha própria família e nos meus conhecidos, esses exemplos. De relembrar a vida das minhas tias-avós… Relembrar, também, o que eu via da vida da minha avó, tudo isso. Foi como se eu pensasse assim “É Carol, por elas, nós vamos fazer diferente!”. Quase que uma constelação familiar da própria Carol, curando sua ancestralidade feminina. (Risos)

“Pietà” mergulha fundo na saúde mental. Você mencionou que a leitura do texto te trouxe angústias pessoais e reflexões sobre a infância. Como você faz para “atravessar” essa densidade emocional em cena sem levar o peso da personagem para casa após os aplausos?
O trabalho do ator sempre será uma exposição de suas vulnerabilidades, e claro, que é necessário sempre conseguir separar vida pessoal da vida do personagem, pois se formos absorver todas as angústias e sofrimentos de nossos personagens, não vamos viver de maneira saudável.
Apesar de Pietà ser um texto bastante denso, é algo tão bem trabalhado, com cada personagem trazendo o seu lado da história – e o Pedro (Dan Rosseto) conta tão detalhadamente suas próprias angústias, mas contando em sessão de terapia para a Susan Helena (Giovana Yedid) que é a terapeuta – que parece que nós, ao escutarmos o que ele está contando e a forma que a terapeuta está conduzindo essa mandala cênica já vamos entendendo tudo aquilo de outra forma. Até mesmo em uma das cenas com a mãe, a dona Odete (Giselle Tigre), que ela fala pra ele “eu nunca quis ser mãe, Pedro” e ver os traços narcisistas que essa mãe carrega, mas também analisar pelo lado da mulher que ela era, da época que ela nasceu, das opções que ela não teve, além das mágoas que ele tem dela, e a forma que ele vai tentando ressignificar tudo, você acaba humanizando esses personagens e entendendo que todos nós temos, nem que seja em menor ou até mesmo maior grau, essas mesmas tristezas, e está tudo bem. Pois, o que somos nós, senão nossas dores e nossas alegrias, não é mesmo? Somos quem somos devido à tudo o que vivemos. Cada um traz, dentro de si, a “dor e a delícia de ser o que é!”, como diria Caetano.
Como é a sua relação com todo o elenco?
Nossa relação é maravilhosa, graças aos deuses! (Risos). Tenho muito carinho e respeito por cada um que está ali. Sendo o Dan quem eu conheço há muito mais tempo, pois foi meu diretor e professor durante minha formação. Através dele conheci o produtor, o Fábio, e quando Pietà surgiu, conheci o diretor Paulo e as meninas, Giselle e Giovana. Cada um ali tem tanto amor por esse projeto, todos querem muito ver a peça acontecer, e isso é tão raro, tão bonito. As meninas da produção (Natália Rabelo e Sophia Dário) são uns amores, eu já havia trabalhado com elas em outra peça, e a equipe do Wagner Pinto que faz a iluminação também, extremamente atenciosa e detalhista com nosso espetáculo, que tem uma iluminação bem específica.

“Pietà” é seu primeiro grande trabalho profissional pós-formação. O que essa “estreia oficial” representa para a menina que começou em Piracicaba e deu uma volta ao mundo antes de se reencontrar com o teatro?
Quando eu paro para pensar em tudo que já vi e vivi nessa vida, dá até nervoso, viu! (risos). Principalmente, por tudo que passei na vida pessoal enquanto todo o campo profissional ia acontecendo, se transformando e mudando. Da escola para a faculdade de Direito, para trabalhar com comércio exterior e ir parar no Canadá para trabalhar em banco, pra voltar pro Brasil com a sobrinha passando por um tratamento de saúde pesado, para ter coragem de voltar para a arte… Olha, só de lembrar já fico exausta (risos).
Mas, em resumo, quando olho pra trás e vejo toda a minha história, eu tenho muito orgulho de tudo. Além de ter, finalmente, muito amor por cada versão minha, que em cada capítulo tive que passar e carregar. Hoje, eu amo cada Mayara que sobreviveu a todos os momentos e transformações. Eu honro e respeito muito tudo o que vivi.
Por que o público paulistano não pode perder “Pietà” nessa passagem pela SP Escola de Teatro? E como está a expectativa para subir ao palco amanhã?
O público paulistano não pode perder Pietà – Um Fractal de Memórias, porque é uma peça que conversa com todos. É uma peça que encanta, que faz rir, faz chorar, faz lembrar. E, além de uma história forte e linda, é teatro bom, com gente boa no palco, com gente inteira e entregue ao ofício que tanto ama: ser ator, fazer arte.
Quanto à expectativa, uma vez eu escutei que “o dia que o teatro não me der mais o frio na barriga antes de entrar no palco, eu posso mudar de profissão”, e nada define melhor a sensação de uma estreia. O teatro, o tablado, exige respeito, exige entrega e, principalmente, exige verdade. No palco não tem fingimento, não tem edição, não tem “fazer de novo”, é ao vivo. O teatro é vivo. Então, o sentimento dessa estreia é de alegria, de dever cumprido e de “tá só começando”, é assim antes de toda sessão, não tem jeito.

Você também está assumindo o papel de Marina, em “Passaporte para o Amor”, após um ano nos bastidores. Como é a sensação de “mudar de lado” na mesma produção e o que essa personagem traz de diferente da densidade de Pietà?
É uma mistura de extrema felicidade e medo tão malucos! (Risos). Eu simplesmente sou apaixonada por “Passaporte para o Amor”. Acompanhei todos os ensaios e todas as apresentações, de todas as temporadas e, mesmo assim, me emocionava em cada uma. É uma história linda, uma comédia romântica tão leve e que aquece o coração, ao mesmo tempo que traz temas densos, mas de uma forma diferente, temas mais sérios são revelados aos poucos, e com uma abordagem leve. Foi lindo ver como a Marjorie Gerardi e o Stephano Matolla construíram esse espetáculo e, agora que a Marjorie será a mamãe do ano, é uma honra imensurável poder dar vida à Marina. Não vejo a hora! Sou muito grata ao Dan Rosseto, como escritor e diretor, e à Viviane Figueiredo, co-diretora, por terem pensado em mim para dar vida à Marina. Agradeço também ao Fábio Câmara produtor e ao Stephano Matolla por terem me recebido de braços abertos.
Você foi até Buenos Aires e garantiu direitos de obras argentinas para os próximos anos. O que o teatro ou obras argentinas tem que mais ressoa com a sua identidade artística e o que podemos esperar dessas produções em 2026/2027?
O teatro argentino sempre foi referência na América Latina toda, sempre foi um exemplo a ser seguido. No audiovisual também, já receberam dois Oscars merecidíssimos. Além de uma gama de atores, diretores e criativos, de um modo geral, extremamente talentosa.
Outra coisa que vejo muito lá é, que apesar de terem os mesmos problemas que o Brasil no sentido de não terem também tanto apoio (ou quase nada) do governo em si, a população argentina apoia muito a arte. É bonito ver, principalmente no teatro que é a área que mais presencio, as sessões lotadas, produções que também são feitas praticamente sem orçamento, mas tem público, tem a atenção da população de uma forma geral.
A Beatriz, que é a autora das peças que produzirei no Brasil, é mãe do diretor e preparador de elenco Walter Rippel, que inclusive foi diretor de elenco e preparador do filme “O Segredo dos Seus Olhos”, de Juan José Campanella, com o grande ator – e um dos meus favoritos – Ricardo Darin no elenco e recebeu o Oscar de melhor filme internacional em 2.010. Eu o conheci em um curso de atuação para o audiovisual em São Paulo. No último dia de curso ele contou aos alunos sobre a história da mãe dele, num momento em que alguns alunos verbalizaram uma das angústias de ser ator, o famoso questionamento “será que tá tarde demais pra mim?”, ao qual ele respondeu contando a história da mãe que, aos 71 anos escreveu sua primeira peça de teatro e, (naquele momento) aos 76 anos, estava com 6 peças escritas, 4 em cartaz e 2 peças premiadas como as melhores peças.
Cheguei pra ele ao final, pedi o contato de sua mãe, mandei mensagem no Instagram e 30 dias depois embarquei para Buenos Aires. Uma das peças que comprei, pude assistir lá, e é uma comédia romântica extremamente bem escrita, e a outra não estava mais em cartaz, é drama e trata do tema dos judeus recém-chegados na Argentina, uma história muito bonita.
Eu me identifico muito com o estilo das peças teatrais argentinas no sentido de montagem e estilo de atuação realista, muito técnico e com um trabalho físico muito intenso, e não vejo a hora de realizá-las como produtora e atriz aqui em São Paulo, em breve.

Serviço:
“Pietà – Um Fractal de Memórias”
Data: 28/02 até 15/03 (Sexta e Sábado 20h30 e Domingo – às 18h)
Local: SP Escola de Teatro – Unidade Roosevelt
Endereço: Praça Franklin Roosevelt 210 – Bela Vista
Contato para informações: 11 3775 8600
Vendas online: https://www.sympla.com.br/eventos?s=piet%C3%A0,%20Um
Ingressos: R$ 40,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia).
Duração: 80 min
Classificação: 14 anos
Capacidade: 60 lugares
Acompanhe a artista nas redes sociais:
Instagram: @mayaramariottoatriz
Instagram da produtora Girassol em Cena: @girassolemcena
Instagram peça Pietà – Um Fractal de Memórias – @pieta_apeca




































