Aos 23 anos, o carioca Caio Nery é ator, cantor, compositor, tem formação no sapateado e vem conquistando o seu espaço com uma trajetória consistente, integrando espetáculos de peso no seu currículo. Além de ser uma das maiores descobertas do teatro musical brasileiro, ele já tem um Prêmio Bibi Ferreira para chamar de seu. É um daqueles artistas que parecem já ter nascido em cena, é inegável como se destaca e consegue transformar os momentos no palco em brilhantes cheios de carisma.
Através de uma relação intuitiva e pessoal com a arte, Caio revela que foi atravessado pelo desejo de contar histórias, criar mundos e representar a nossa cultura. O artista começou sua carreira profissional aos 11 anos ao interpretar o menino lobo Mogli, depois vieram outros espetáculos como “Cartas para Gonzaguinha”, “A Menina do Meio do Mundo – Elza Soares”,“Nas Alturas!”, “Benjamin, O Palhaço Negro”,”Rock in Rio 40 anos”, “O Jovem Frankenstein”, “República Lee – Um Musical Ao Som de Rita”, e mais o mais recente”Hair”. Nessa entrevista exclusiva para a Conexão Magazine o artista conta um pouco de sua trajetória.
Ao longo da conversa, Caio Nery fala sobre o início da carreira ainda pequeno nos palcos, versatilidade artística, a conquista do 12° Prêmio Bibi Ferreira na categoria “Revelação em Musicais”, entrar para a lista da Forbes Under 30 de 2025 integrando a categoria “Artes Dramáticas”, suas aspirações de personagens e como tem sido integrar obras que dialogam com diversas gerações.
Confira a entrevista na íntegra!
CM: Você iniciou sua carreira ainda muito jovem, protagonizando a peça Mogli. Como foi começar a atuar tão jovem e de que forma essa experiência marcou a sua relação com o palco?
CN: Antes de eu atuar profissionalmente, eu já atuava fora dos palcos. Desde criança, eu criava brincadeiras muito encenadas. Não era só brincar por brincar. Tinha personagem, tinha história, tinha origem, tinha conflito. Cada pessoa tinha um papel dentro daquele universo que eu inventava. E eu levava tudo muito a sério. Minhas brincadeiras tinham profundidade. Tinham detalhes. Tinham dramaturgia, mesmo sem eu saber o que era isso na época. Eu já estava brincando de ser ator. Já estava usando a imaginação como ferramenta pra entender o mundo. Então eu não me lembro exatamente de quando eu me descobri artista. Porque, na verdade, eu sempre fui. O que aconteceu foi que, em algum momento, eu encontrei o meu lugar.

Foi como se tudo se encaixasse. Hoje eu vejo que o meu trabalho é a extensão daquela criança. O palco é a continuação das minhas brincadeiras. É onde todos aqueles universos continuam vivos. Onde a minha criança interior ainda cria, investiga, sonha. Começar cedo foi só uma confirmação do que já existia dentro de mim. Desde muito jovem, eu tive a chance de entender qual era o meu lugar no mundo. Mesmo antes disso, no meu inconsciente, eu já sabia. A arte sempre esteve em mim. Faltava maturidade pra assumir isso. Mas o instinto, a vontade de contar histórias, de sentir, de imaginar… isso sempre esteve ali. E continua sendo o que me move até hoje.

CM: Você é um artista bastante versátil: além de atuar, canta, compõe e dança. A arte sempre foi uma prioridade conforme você crescia ou esse caminho foi se consolidando aos poucos ao longo da sua formação?
CN: A arte sempre foi uma prioridade na minha vida, mas nunca por uma intenção de me profissionalizar desde cedo. Não era um plano. Era uma atração natural. Eu simplesmente me sentia à vontade naquele universo. Desde criança, eu sempre escolhi atividades que envolvessem arte. Fiz sapateado, aula de desenho. Inclusive, eu comecei no mundo artístico desenhando. Antes de me descobrir ator, cantor ou dançarino, eu era um menino que amava desenhar. Fiz aulas na oficina do Daniel Azulay, que eram muito lúdicas, muito interativas. A gente desenhava, brincava, conversava, criava junto. E nessas aulas, eu já imitava personagens enquanto desenhava, fazia vozes, inventava coisas. Era tudo muito espontâneo. Um dia, inclusive, meu professor falou pra minha mãe: ‘Ele desenha muito bem, mas acho que ele devia fazer teatro.’ E aquilo foi um ponto de virada. Eu sempre fui muito comunicativo, muito expressivo, muito atraído por esse universo.
O desenho, até hoje, é uma vertente artística que eu cultivo. Eu não sou profissional nessa área, mas amo pintar, amo criar. Faz parte de quem eu sou. Então, a arte nunca entrou na minha vida como uma obrigação ou como um projeto de carreira. Ela entrou porque era o lugar onde eu me sentia inteiro, confortável e feliz. Mesmo sendo uma criança que fez de tudo um pouco, futebol, surf e outras atividades, a arte sempre foi o que eu mais priorizei, porque era onde eu me reconhecia. E só depois, quando eu comecei a entender que isso também era uma profissão, que eu podia viver do que eu amava, é que veio a responsabilidade. Aí eu passei a buscar formação, técnica, disciplina. A querer me tornar um artista completo, preparado para atuar, cantar e dançar com domínio.
CM: Em 2025, você recebeu uma das maiores honrarias do teatro musical brasileiro ao conquistar o Prêmio Bibi Ferreira como Revelação em Musicais, pela sua atuação em República Lee – Um Musical ao Som de Rita. Como foi viver esse momento de que maneira você acredita que essa conquista já impactou sua trajetória profissional?
CN: Esse foi um dos momentos mais marcantes da minha vida. Eu não estava esperando pela indicação, então foi uma surpresa enorme. E quando eu ouvi o meu nome… eu fiquei sem palavras. Porque passa muita coisa na cabeça. A luta é grande, o caminho é longo e cheio de desafios. Então receber esse reconhecimento tão jovem é algo muito difícil de explicar. Existem tantas pessoas talentosas no mercado, dentro e fora dele… então me senti profundamente honrado. Ainda mais por ser na categoria Revelação em Musicais. Eu faço teatro musical desde os meus 10 anos de idade. Aos 23, através desse prêmio, foi como se minha trajetória fosse finalmente apresentada para todo mundo ver. Foi muito simbólico.

CN: Mais do que a realização de um sonho, eu sinto que foi uma reafirmação. A reafirmação de que vale a pena. De que é possível construir uma carreira com verdade, com dedicação, e ainda inspirar outras pessoas. Pra mim, talvez o mais forte de tudo seja encontrar pessoas jovens, meninos pretos, que se veem na minha trajetória e dizem que se sentem inspiradas. Isso, pra mim, tem o mesmo peso que o prêmio. Talvez até mais. Essa conquista me trouxe uma validação muito bonita. Não só profissional, mas pessoal. Uma confirmação de que eu estou no caminho certo. De que todo o esforço, toda a entrega, todo o amor pela arte fazem sentido. E isso me dá ainda mais vontade de continuar.

CM: Você é um dos nomes em ascensão do teatro musical brasileiro, e integrou diversos espetáculos de destaque. Existe algum personagem ou musical específico que você ainda sonha em interpretar?
CN: Existem alguns personagens que sonho em interpretar dentro do universo do teatro musical. Sou fissurado por Pippin. Foi o primeiro musical que estudei de verdade, a história, as músicas, durante o primeiro curso de teatro musical que fiz. Então essa obra tem um lugar muito especial pra mim. Gosto muito do Stephen Schwartz, e tudo que envolve esse musical me despertou muito interesse. Um papel que sonho em fazer um dia é o Leading Player, que foi interpretado originalmente pelo Ben Vereen. É um personagem extremamente desafiador e instigante. Também tenho vontade de interpretar o Clyde, de Bonnie & Clyde, além de querer experimentar personagens diferentes: vilões, mocinhos, figuras mais complexas. Gosto de papéis que me provoquem, que me tirem da zona de conforto.
Estou muito imerso em tentar produzir, compor e participar de musicais que falem mais sobre a cultura do nosso país. Isso ainda é muito escasso, apesar de estar surgindo agora uma onda bonita de musicais homenageando grandes nomes da MPB por exemplo, que fazem parte da nossa cultura e da história do nosso país. Então, sim, tenho meus ‘dream roles’, mas também tenho um desejo enorme de interpretar personagens autorais, que representem a nossa cultura, a nossa cidade, a nossa história. Personagens que nunca foram feitos antes. Muitos musicais que vêm de fora refletem a cultura de onde surgiram, e normalmente já foram interpretados por várias pessoas. Isso é incrível, claro, mas me sinto muito instigado a criar do zero. A ter liberdade para construir algo novo, como foi no ‘República Lee’. Embora as referências sejam fundamentais, eu acredito muito na importância de desenvolver a nossa originalidade e a nossa criatividade. Criar do nada, contar as nossas próprias histórias, é um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das coisas que mais me motivam hoje.

CM: Antes de encerrar 2025, você integrou a lista Forbes Under30 como destaque em Artes Dramáticas. Como foi receber essa notícia? Você já havia sido avisado previamente ou foi completamente pego de surpresa?
CN: Já tinha sido avisado cerca de um mês antes, mas precisei guardar esse segredo absoluto a pedido da própria revista. Então não foi exatamente uma surpresa, mas foi, pra mim, uma verdadeira bomba. Uma bomba de honra, de felicidade. É algo indescritível. O ano de 2025 foi muito importante para a minha carreira. Depois do Prêmio Bibi Ferreira, eu já estava extremamente instigado a me desafiar para 2026. Eu comecei a me perguntar: ‘Como eu vou me superar agora? Como eu posso usar esse prêmio como impulso? Que projetos eu posso criar para fazer jus a essa conquista?’ O Bibi já tinha sido um grande marco, uma virada, uma confirmação.
E aquilo me despertou ainda mais vontade de crescer, de me reinventar, de ir além. Já estava nesse movimento de querer me superar, quando, antes mesmo do ano acabar, veio a notícia da Forbes Under 30. Eu fiquei completamente sem chão. Muito emocionado. Mas, acima de tudo, mais inspirado, mais motivado, mais feliz e mais seguro de que eu realmente escolhi a profissão certa para a minha vida. Foi uma notícia que veio como um abraço, como uma confirmação de que todo o esforço, toda a luta e toda a dedicação valeram a pena. E, ao mesmo tempo, veio como um combustível para continuar sonhando, criando e trabalhando ainda mais.

CM: Atualmente, você interpreta Ricarddinho na peça Fala Sério, Mãe! Elas Só Mudam de Endereço, inspirada no best-seller de Thalita Rebouças, uma das autoras mais queridas do público jovem. Qual é a sua relação com a obra da escritora e como tem sido participar desse espetáculo que conversa com diferentes gerações?
CN: Pra mim é muito instigante estar em projetos que valorizem a nossa cultura e que sejam autorais do nosso país. A Thalita Rebouças é uma grande inspiração, não só pra mim, mas para todo o elenco. Está sendo uma honra enorme fazer parte dessa adaptação musical de uma obra que ela escreveu há mais de 15 anos e que atravessou gerações. A minha relação com esse trabalho é de muito carinho. É uma história que nasceu da mente de uma mulher brasileira, a partir de vivências brasileiras, de relações que a gente reconhece no nosso dia a dia. Isso, pra mim, é muito poderoso. Eu sinto que o Brasil tem muita coisa pra contar.

Existem muitas obras incríveis, muitos artistas talentosos, e, às vezes, a gente ainda não virou completamente essa chave de entender o quanto é importante dar holofote para as nossas próprias histórias, para as nossas ideias, para os nossos criadores. Participar desse espetáculo também me inspira muito. Me dá ainda mais vontade de, no futuro, compor e criar um musical autoral, que possa ser referência para outras pessoas, assim como essa obra foi e continua sendo pra tanta gente. E é muito bonito ver o público. Pessoas de idades diferentes, gerações diferentes, vindo assistir, se emocionando, se identificando. Tem gente que já conhecia a história, tem gente que está descobrindo agora, e todo mundo se envolve de verdade. Ver esse interesse por uma obra brasileira, por um projeto original, feito por uma autora brasileira, é muito especial. Mesmo sem falar diretamente ‘sobre o Brasil’, ele é Brasil. Ele nasce daqui, da nossa cultura, das nossas relações. E eu me sinto muito feliz e honrado de poder fazer parte disso.
Fotos de Caio na peça Fala Sério, Mãe! Elas Só Mudam de Endereço













































