Érica Marti é a nova capa digital da Conexão Magazine, estreando a edição 111 e inaugurando a nossa primeira publicação do ano em grande estilo. Natural de Mato Grosso e modelo de carreira internacional, ela faz história como a primeira mulher assumidamente lésbica a disputar o Miss Brasil. Sua trajetória, no entanto, vai muito além das passarelas, é uma história de resiliência que começou aos 16 anos, quando deixou o país sozinha para conquistar o mercado da moda e, no processo, descobriu que sua maior potência residia na coragem de ser quem se é.
Em entrevista exclusiva, Érica mergulha em temas profundos que conectam sua imagem pública ao seu papel como liderança corporativa. Ela compartilha como a maturidade conquistada no exterior moldou sua visão de independência e o momento exato em que assumir sua orientação sexual deixou de ser visto como um risco para se tornar um pilar de sua força profissional. Para Érica, ocupar espaços estratégicos sendo uma mulher sáfica não é apenas uma conquista individual, mas um ato político de abertura de caminhos para quem vem depois.
A Miss Eco Mato Grosso 2025 também discute a transição da visibilidade para o poder real. Ela analisa criticamente as lacunas entre os discursos de diversidade das empresas e a realidade enfrentada por jovens LGBTQIAP+, destacando que a verdadeira transformação social passa, necessariamente, pela autonomia financeira e pela segurança de existir sem precisar se esconder. É dessa inquietação que nasce o projeto “Orgulho em Liderar“, sua iniciativa para transformar o medo de jovens talentos em preparo técnico e perspectiva de crescimento.

Ao longo da conversa, Érica revela uma visão de mundo onde a sustentabilidade e a liderança feminina caminham lado a lado com a inclusão. Ela defende que não é possível cuidar do planeta ignorando as vozes de quem sempre foi silenciado, propondo uma ecologia humana que protege a terra e as pessoas. Com um discurso que equilibra perfeitamente firmeza e ternura, ela reafirma que o novo perfil de liderança no Brasil precisa ser, acima de tudo, humano, preparado e autêntico.
Érica Marti chega à nossa edição digital de janeiro não apenas para celebrar sua beleza, mas para validar uma trajetória fora dos padrões que inspira outras mulheres a não se diminuírem para caber em lugar nenhum. Ela é a prova viva de que a vulnerabilidade, quando transformada em propósito, torna-se uma força inabalável capaz de redesenhar o futuro do mercado e das passarelas.
Confira agora o bate papo completo:
Érica, aos 16 anos você saiu do país sozinha para trabalhar com moda. Como essa experiência precoce moldou sua visão de independência e liderança?
Sair do país aos 16 anos me ensinou, acima de tudo, a lidar com pessoas e a atuar em cenários muito diversos. A moda é um ambiente em constante mudança, e isso me obrigou a me adaptar, me transformar e me superar continuamente. Aprendi a respeitar culturas, ritmos e diferenças, entendendo que liderança não é rigidez, mas a capacidade de evoluir sem perder a própria identidade. Essa vivência moldou uma liderança flexível, observadora e preparada para ambientes dinâmicos.
Ao longo da sua trajetória corporativa, você construiu autoridade em ambientes altamente exigentes. Em que momento assumir-se como mulher lésbica deixou de ser um risco e passou a ser parte da sua força profissional?
Isso aconteceu quando percebi que minha trajetória podia servir de referência para outros profissionais que ainda se escondem. Entendi que, para muitas pessoas LGBTQIA+, o trabalho não é apenas carreira, mas o caminho para liberdade financeira, autonomia e, em muitos casos, a possibilidade real de existir com segurança. Assumir quem eu sou passou a ter um peso coletivo, não apenas individual. Quando você ocupa espaços com competência e consistência, mostra que é possível crescer, se sustentar e se posicionar sem abrir mão da própria identidade.
Sua passagem pelo Miss Eco Brasil 2025 marcou um ponto de virada de visibilidade. O que aquele momento representou na construção da sua identidade pública e política?
O Miss Eco Brasil 2025 marcou um ponto de virada porque deixou de ser apenas sobre mim. Depois dele, recebi mensagens de mulheres sáficas que se sentiram incentivadas a participar de concursos e a ocupar espaços que antes pareciam distantes. Isso me fez entender o alcance da minha presença pública. Quando uma mulher se coloca com verdade, ela inspira outras a acreditarem que também podem estar ali.

Depois dessa exposição, você direciona sua atuação para algo mais estrutural. Quando ficou claro que visibilidade, sozinha, não garante autonomia nem poder real para pessoas LGBTQIA+?
A visibilidade traz voz, inspiração e abertura de caminhos, e isso é importante. Mas ficou claro que ela só faz sentido quando existe uma construção contínua. A visibilidade abre portas, mas é o trabalho que sustenta a presença. Pretendo voltar aos concursos e escalar ainda mais a ideia de que mulher sáfica não tem uma única cara, não existe um padrão. Ao mesmo tempo, acredito profundamente na importância da liberdade e da independência financeira, especialmente para jovens LGBTQIA+ que estão entrando no mercado de trabalho. É isso que transforma inspiração em realidade.
O “Orgulho em Liderar” nasce dessa leitura crítica do mercado. Que lacuna você percebeu entre o discurso de diversidade das empresas e a realidade vivida por jovens LGBTQIA+?
Muitos jovens LGBTQIA+ ainda têm medo de se expor, de serem julgados ou de perderem oportunidades, e isso impacta diretamente no rendimento e na confiança, porque ninguém consegue performar bem escondendo quem é. Ao mesmo tempo, ainda existem poucos líderes LGBTQIA+ assumidos em posições de decisão. Eu também já tive esse medo. Hoje, ocupando um cargo alto e com imagem pública, consigo mostrar que é possível construir carreira, independência e liderança sendo quem se é. O “Orgulho em Liderar” nasce para transformar esse medo em preparo e perspectiva real de crescimento.
Diante de dados tão duros sobre discriminação e limitação de crescimento profissional, que tipo de liderança LGBTQIA+ você acredita que o Brasil precisa formar agora e qual é o seu papel nesse processo?
O Brasil precisa formar jovens preparados, confiantes e economicamente independentes. Pessoas que saibam se posicionar, mas que também construam carreira, renda e estabilidade. Meu papel é mostrar, pelo exemplo, que isso é possível. Compartilhar experiências, abrir caminhos e incentivar jovens a acreditarem no próprio potencial, entendendo que o trabalho pode ser uma ferramenta de liberdade. Quando existe preparo e autonomia, a liderança acontece de forma natural.









































