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Capa Digital | JOK3R | Ed. 108

Beatriz Arasanoli

Beatriz Arasanoli

18 de dezembro de 2025

Um dos nomes em ascensão no cenário do R&B nacional, JOK3R vem conquistando cada vez mais o seu próprio público e mostrando habilidade em tudo que se propõe a fazer. Este ano marcou um novo nível na sua trajetória: o lançamento de seu primeiro EP autoral, ÍNTIMO, composto por seis faixas inéditas. Agora, o produtor, cantor e instrumentista conversa com a Conexão Magazine sobre sua caminhada e a chegada desse projeto à sua vida, entre processos de criação, produção e estreia.

A arte sempre fez parte do seu cotidiano. Inspirado pelo pai, maestro, e pelo irmão também artista Daniel Cruz, JOK3R começou cedo: aos nove anos já respirava música. Nascido e criado na Cidade de Deus (RJ), construiu sua identidade artística como quem cava as próprias oportunidades para ser ouvido, transformando suas vivências em sensibilidade, força e coragem através da música.

O público já conhece bem o seu lado produtor. Ele assina faixas como Afrodite (IZA e Delacruz) e “Aperta Start”, single de platina duplo, evidências de sua influência crescente na nova música urbana brasileira. Falar sobre essa nova cena é, inevitavelmente, esbarrar em alguma produção que leva sua assinatura, pois ele é sem dúvidas, o responsável por ajudar a moldar o R&B contemporâneo no país. Além de colaborações com nomes como Delacruz, IZA, Ludmilla, Budah e Vitão, JOK3R também fundou os selos BBG e BLACKHOUS3, e acumula mais de 3 milhões de ouvintes mensais no Spotify.

Veja a capa do EP “ÍNTIMO”:

JOK3R lança seu primeiro EP “ÍNTIMO” / Créditos: Divulgação

Com ÍNTIMO o artista revela um retrato emocional e totalmente autoral. Gravado em casa, com calma e liberdade criativa, o EP mostra o artista em seu estado mais puro e íntimo até aqui, de alguém que respira arte e que, talvez, precisou percorrer exatamente esse caminho para chegar onde está agora. O EP abraça sua vulnerabilidade, introspecção e a força de assumir sua a voz própria. O trabalho reúne participações especiais que dialogam com o universo urbano do artista: “ERYKAH” (feat. Sotam), “OLHAR DE CEREJA” (feat. Vitão), “ALCIONE” (feat. Wesley Camilo).

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

CM: O EP “Íntimo”, recém-lançado, marca uma nova faceta do JOK3R, pra quem já acompanhava seu trabalho como produtor. Agora, assume também os vocais em um projeto inteiramente seu, o primeiro após alguns singles, mostrando nas letras aquilo que antes se expressava apenas nas melodias. Existiu algum receio de mostrar as composições e se expor artisticamente de uma forma tão pessoal?

JOK3R: Sempre tive questões com o meu canto. Sempre gostei de cantar, sempre gostei de fazer poesia quando era criança, mais novo ali, dos meus 9 até meus 10 anos tinha o hábito de escrever. Era engraçado que eu gostava de fazer cartas quando era mais novo. Então tinha várias cartinhas. Algumas eu fazia para as menininhas que gostava da escola, outras fazia para a minha mãe. Enfim, tinha esse hábito de escrever cartas, poemas. E como toquei teclado desde muito cedo, então eu conseguia montar ali uma linha melódica, um refrão, alguma coisa muito mais rápida.

CM: O artista conta que pelo contexto social onde veio, ser bom em diversas coisas ainda era visto de uma forma ruim pelas pessoas.

J: Só que na minha realidade, fazer várias coisas, saber tocar, saber arranjar, saber cantar, era visto com maus olhos. “Se você faz de tudo, você não é bom em nada.” Então eu fiquei muito tempo sem desenvolver isso, essas habilidades, por conta dessa lógica, desse pensamento. Então isso me travava, eu era muito tímido pra cantar.

JOK3R / Créditos: Divulgação

CM: JOK3R ainda revela uma história engraçada da primeira vez que cantou em público e fez as pessoas se emocionarem.

J: Quando me apresentei a primeira vez em público, mandei as pessoas ficarem de costas, tava todo mundo sentado, falei “fica geral de costas!” ai todo mundo ficou de costas pra mim, aí toquei e cantei, e geral chorou, todo mundo ficou chorando na sala, enfim, tenho essa memória. E vieram essas memórias na minha mente, quando tava escrevendo as músicas de ÍNTIMO, na minha sala gravando. Então foi libertador esse disco, foi uma forma de falar pra mim mesmo o que eu consigo. Falo “Não JOK3R, você consegue cantar também, você consegue compor também, você consegue produzir também, gravar os instrumentos també, eu posso fazer tudo que eu quiser”, a música nasceu em mim, então quem vai dizer que não? é isso.

CM: A construção desse projeto é resultado de um processo mais longo. Há quanto tempo você vem trabalhando no EP? E como foi conciliar a rotina de shows, produção e o tempo criativo necessário para desenvolver as faixas?

J: De certa forma, até que foi rápido. O EP em si, se eu for olhar só pro EP, foram 6 meses, desde a primeira música até mixar, masterizar tudo, gravar. Porém, eu já tinha feito uns 3 discos. Aí um belo dia, ouvindo as guias com o meu manager, a gente tava indo pra uma reunião, eu tinha feito “SOLANGE”. Aí eu mostrei pra ele, a ideia que foi, chegou e falou, se a gente fizesse um projeto nessa pegada aqui, aí eu não tinha pensado nisso. Ai achei maneiro, pensei eu vou fazer. Aí fiz SOLANGE. As demais músicas nasceram dessa provocação do meu manager. Fui pra minha casa, montei meus instrumentos na sala, o EP ÍNTIMO foi feito na minha casa, no estúdio gravei, só com o Vitão e Sotam, o resto foi tudo na sala, nessa vibe, ficou uma bagunça, muitos dias. Minha mulher incomodadíssima falava “Amor, por favor tira esses teclados daqui. A sala tá uma bagunça.” Mas era assim. Às vezes tava almoçando e aí do nada. “Caramba, tive uma ideia!” Largava o prato, pegava e ligava o teclado. Foi desse jeito.

JOK3R / Créditos: Divulgação

CM: Um dos detalhes curiosos do EP está nos títulos: praticamente todas as músicas (com exceção de “Olhar de Cereja”) têm nomes femininos. Por que essa escolha?

J: Gosto de conceito, de projetos com conceito, de easter eggs, de deixar pistas, coisas assim para a galera ir desvendando mistério, de fazer esse tipo de brincadeira e isso sempre foi assim desde que comecei a lançar meus sons, por exemplo, a música “Ex” do Daniel Cruz e da Nathy Veras, o último acorde é o acorde de “Aladdin” do Delacruz, a mesma formação, foi de propósito, e essas músicas tem dois, três anos de diferença. Os nomes femininos no EP ÍNTIMO, foram uma forma de homenagear artistas pretas que tiveram relevância na música, todas as artistas são relevantes mas Solange, Erykah Baduh, Ivone Lara, Alcione são ícones que marcaram a nossa música e eu queria trazer isso até porque escrevo músicas para o público feminino então queria começar um projeto nesse lugar e eu sou um cara que faço música pras meninas, me comunico com o público feminino a maioria das pessoas que ouvem as minhas músicas são meninas quando tô na pista com Delacruz fazendo show. A maioria absoluta do público é feminino então pensando nisso decidi colocar o nome das músicas de artistas femininas pretas.”

CM: As participações especiais reforçam a autenticidade do trabalho no R&B e rap. “Íntimo” traz o Sotam com quem você já havia trabalhado antes e novas colaborações com Vitão e Wesley Camilo. Como foi convidá-los para colaborar neste projeto?

J: Gosto muito de trabalhar com meus amigos. Quando eu comecei a pensar em projetos, quando me vi nesse lugar de criador, falei “não, eu sou um produtor, eu tenho que fazer projetos, eu tenho que criar coisas.” Entrei nesse lugar de pensar nas colaborações, e comecei a bater a cabeça, e aí pensei peraí, isso tá errado. Olha para seus amigos, quem são seus amigos? Falei caramba, meus amigos. Delacruz, Lukinhas, Amanda Amado, Sotam, Wesley Camilo, Vitão, Jasmin Santos. Eu falei caramba, não preciso bater a cabeça. Olha meus amigos aqui, são os melhores que eu conheço. Com isso, chamei a galera para colaborar nesse projeto e comecei com o Sotam, Wesley e Vitão e foi muito bom pelo fato de serem amigos fluiu perfeitamente, parecia que eu já conhecia uma música antes de escutar música porque foi como uma luva tipo os versos as melodias ficaram super bem feitas.

Ouça o EP aqui embaixo:

CM: Em “ALCIONE”, você se permite um momento instrumental mostrando sua identidade com um solo de teclado que mostra toda a sua versatilidade. Como foi explorar essa liberdade criativa no EP inteiro e trazer ao público esse lado completo da sua arte?

J: Meu pontapé inicial na música foi o teclado, o primeiro instrumento que me deu esse recurso de conseguir explorar harmonia e entender como uma música funciona, foi pelo teclado que eu consegui chegar nesse lugar, antes, toquei bateria durante alguns anos, mas não segui com os estudos. Como tecladista, é um instrumento que é presente muito forte em todas as minhas produções, sempre vai ter ali timbre diferente de teclado, vai ter um pad diferente, um timbre dos anos 80, algo de teclado marcante até porque essa é uma das minhas identidades artísticas.

CM: Ele também conta como surgiu a ideia de deixar a sua impressão em um solo de teclado na faixa, e também contou com outra provocação de seu manager.

J: Não tinha nenhuma faixa no EP ÍNTIMO que tivesse um solo de teclado marcante mais escrachado no teclado. Em mais uma provocação do meu manager falando “pô JOK3R tu é tecladista do Delacruz, você toca teclado desde criança, produz no teclado tu compõe no teclado mas você não tem nenhuma música onde tem a solo de teclado” Verdade das 130 músicas lançadas, não tinha nenhuma com tecladão, com solo bolado, não tinha” Aí fiz ALCIONE e chamei o Wesley também nesse lugar porque ele também é um ótimo tecladista ele não gravou mas eu penso ali futuramente ali no ao vivo a gente fazer um negócio junto dos tecladistas cantando. E dessa ideia nasce ALCIONE, com um solo cabuloso de teclado no final.

CM: Você acaba de alcançar um grande feito como produtor: “Afrodite” produzida para o disco Vinho do Delacruz com participação da IZA ultrapassou 50 milhões de streams, um marco para o R&B no Brasil. Como foi produzir essa faixa e o que você acredita que tem impulsionado o gênero a alcançar novos públicos e espaços no Brasil?

J: Com certeza. Abriu uma gama de possibilidades pra quem faz R&B, apesar das pessoas ainda não entenderem o tamanho dessa música. Me sinto aliviado porque hoje consigo ter esse espaço, antigamente meus beats eram vistos como diferentes. Eram estranhos, as pessoas não conseguiam cantar nos meus beats, eu faço a mesma coisa até hoje, do mesmo jeito, da mesma forma. Claro com mais maturidade, porém a forma como produzo é a mesma, só o que mudou foi o tempo. Só continuei fazendo o que acreditava. O Delacruz é um cara que acredita muito na arte dele, na musicalidade, no produto e isso contribuiu muito pra que desse certo. É um indicativo pra eu ver que to no caminho certo, segue teu caminho, segue tua verdade, porque é isso que vai fazer eu me sustentar da música pra sempre. Eu tenho que fazer músicas que façam sentido no dia a dia das pessoas, que causam sentimentos, que tragam memórias, coisas relevantes pra vida das pessoas e não tem como chegar nesse lugar trabalhando pra uma máquina, pra uma plataforma, pra pessoas de terno e gravata, eu faço do meu jeito e isso tem me trazido até aqui e fez com que a música andasse.

CM: O artista finaliza contando sobre a faixa lhe colocou num lugar de acesso a novos públicos.

J: Muitos artistas de vários gêneros me acompanharam depois de Afrodite. Muita gente quis colaborar por conta dela. Fiz muitas amizades no meio da indústria da música por conta dela. Então me colocou no radar. Não somente ela. Todo o trabalho envolvido durante esses anos. Mas ela foi aquele efeito dominó. Aquela pecinha que você derruba e então foi Afrodite, essa música que fez isso.

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