Capa digital da Conexão Magazine, Marc Yann vive um dos momentos mais intensos e autorais de sua trajetória ao apresentar “Arrebatamento”. O single marca uma fase de consolidação estética do artista, que transforma espiritualidade, emoção e pop em uma linguagem própria, onde símbolos bíblicos ganham novos significados e dialogam com afetos, desejo e liberdade.
Com uma identidade que transita entre o sagrado e o profano, Marc constrói um pop místico carregado de sensibilidade e coragem emocional. Inspirado por sua criação cristã, ele revisita referências que por muito tempo foram fonte de medo e repressão, ressignificando essas imagens em metáforas de amor, vulnerabilidade e autoexpressão. O resultado é uma obra que pulsa entre a introspecção e a pista de dança, equilibrando melancolia, força estética e intensidade pop.
Em “Arrebatamento”, o artista amplia ainda mais suas camadas criativas ao misturar português e inglês pela primeira vez, além de flertar com influências que vão de Lady Gaga a Lana Del Rey, passando por Jão e Kerli. A faixa inaugura um clima que ele define como “verão gótico”: sombrio, romântico e luminoso ao mesmo tempo, antecipando os próximos passos de sua jornada musical.
Em entrevista, Marc Yann fala abertamente sobre espiritualidade, criação cristã e o impacto disso em sua identidade artística e pessoal. Ele reflete sobre transformar traumas em cura, sobre cantar para a criança que um dia buscou liberdade em ambientes hostis e sobre como o amor, especialmente sendo LGBT, pode atravessar regras, julgamentos e dogmas. Um papo profundo sobre fé, pop, autenticidade e a coragem de ressignificar a própria história.
Confira a entrevista completa:
Conexão Magazine: “Arrebatamento” nasce a partir de um termo com forte carga espiritual. O que essa palavra significa para você hoje, depois de ressignificá-la?
Marc Yann: Cantei durante muito tempo na igreja, então estou acostumado com termos bíblicos e essa temática não é nova na minha carreira. Sempre trago essa raiz para minhas composições, e hoje isso significa encontrar uma nova conexão, mais saudável, com a minha espiritualidade, entendendo o que faz sentido ou não para mim.
CM: Como foi transformar símbolos que antes te causavam medo em ferramentas de autoexpressão e liberdade?
MY: A música é minha salvação e, por muito tempo, foi meu refúgio quando o mundo questionava minha sexualidade usando a religião como base. Hoje eu mudo essa narrativa de medo e trago a religião como parte do meu amor, de quem eu sou, ressignificando aquilo que era considerado pelos outros pecado em algo sagrado.
CM: Em que momento você percebeu que poderia usar referências bíblicas para falar sobre afetos e desejos sem perder sua autenticidade?
MY: Fui criado na igreja, então essa raiz está em mim de forma natural, enxergando o mundo pela lente do sagrado e do profano. O que faço agora é me conectar com essa parte da minha vida que foi traumática e tentar ser luz para aquela criança que só queria ser livre naquele ambiente hostil da igreja.

CM: De que forma sua criação cristã influencia, positiva ou criticamente, a estética mística que você constrói na música?
MY: Hoje eu encontrei minha própria forma de religião, entendendo o que faz sentido para a minha realidade ou não, sem depender de dogmas ou hierarquias predominadas por homens no poder. Então, muitas vezes, isso se reflete em metáforas que aproximam o divino do mundano, ou em forma de crítica.
CM: O single fala sobre um amor que atravessa regras e julgamentos. Como essa mensagem se relaciona com a sua própria jornada pessoal?
MY: Entender o amor que você sente sendo LGBT é um caminho árduo, que machuca, que traumatiza, porque quase todos à sua volta dizem que é errado. Hoje eu canto para aquela criança que eu fui, tentando entender o próprio corpo e os sentimentos. Canto para quem busca uma dose de liberdade, ousadia e amor, porque não teve isso quando estava tentando entender o próprio caminho nesse mundo.
CM: Você acredita que a espiritualidade pode ser um lugar de cura dentro do pop? Por quê?
Eu acredito que, quando você faz as pazes com partes suas que foram feridas, isso cura e te leva para uma liberdade que só você mesmo pode se dar. Sejam machucados causados pela religião ou pelos outros ao seu redor, o processo de cura vai depender de você e do quanto você quer ser autêntico, entendendo o que realmente pertence a você e o que não faz sentido carregar. Esse processo é único, não existe fórmula, e se a espiritualidade for o caminho para alguns, que seja de uma forma saudável e sem julgamentos.




































