O cantor e compositor Diogo Melim lançou, no dia 15 de abril, seu primeiro álbum solo, “Rascunhos”, disponível em todas as plataformas de streaming. Com produção de Pedro Breder e lançamento pela Universal Music Brasil, o projeto reúne sete faixas inéditas que evidenciam a versatilidade e a essência de um dos nomes em destaque do pop nacional.
Mas, quanto tempo é necessário para se reinventar e reencontrar a própria essência? Para muitos, o intervalo até este novo trabalho pode ter parecido longo, e especialmente para os fãs. Para quem acompanha de perto a trajetória de Diogo, fica claro que esse tempo foi fundamental para a construção da sua própria assinatura em “Rascunhos”.
Explorando sua identidade musical com mais profundidade, o álbum apresenta as faixas “Nem Sei”, “Mil Versões”, “Cadeira de Praia”, “Desamor”, “Quebra-Cabeça”, “Procurando Rosas” e “Luzes e Faróis”. A sonoridade transita pelo pop, mas incorpora influências diversas, que vão do synth pop e do bass à música eletrônica, com toques que também remetem à bossa nova.
Nessa nova fase, Diogo não caminha sozinho. O projeto conta com colaborações nas composições de nomes como seu irmão Rodrigo Melim, Mike Túlio e Guto Oliveira, além de Vitão, o próprio Breder, Tibí, Vitor Tritom e Rian Manhente.
Em entrevista à Conexão Magazine, o artista revelou com sinceridade alguns detalhes sobre o processo de reencontro consigo mesmo antes de começar a carreira solo, as parcerias com seu irmão Rod, influência de sua esposa em algumas faixas e a experiência de recomeçar um projeto e agora em uma nova fase da carreira.
Confira a entrevista na íntegra:
Conexão Magazine: Podemos enxergar o disco como uma reunião de ideias que ficaram guardadas ao longo da sua trajetória ou ele representa mais um retrato emocional da sua fase atual?
Diogo Melim: As músicas que eu fiz para esse álbum foram feitas agora, não são músicas antigas, na verdade eu escrevi mais canções do que as do álbum, só tem 7 mas existem muitas outras canções que não entraram nesse álbum. A ideia de trazer o nome “Rascunhos” é justamente para brincar com a proposta da música pronta ser inacabada, A gente se prepara demais para as coisas, sempre tem uma próxima meta, uma próxima versão da gente, que achamos que é melhor do que somos agora, e com a música também é assim. A gente sempre acha que dá para melhorar, quando na verdade já é bom o bastante da forma como a gente é, a música é boa o bastante da forma como ela é.
Não quer dizer que depois eu não possa fazer uma nova roupagem, gravar de maneira acústica e vai se gerar uma nova versão, mas não quer dizer que aquela primeira versão não era boa o bastante. Então quis brincar com essa questão da perfeição, eu sou do tipo de pessoa que prezo pela excelência, me cobro demais, sempre gostei da música pop e tem essa estética mais clean, e sempre gostei de entender essa engenharia por trás da escrita, e o que os grandes hits tinham em comum, e hoje eu percebo que o maior valor da música ta na parte orgânica dela, que começa no rascunho, quando você ta escrevendo com uma caneta, você já tem 100% do que é a canção e é claro depois traz uma roupagem musical mais robusta para você traduzir ela para as pessoas. Os rascunhos que fizeram parte da construção desse álbum sendo os que se tornaram música ou não tem total importância para mim, e todos eles fizeram esse contexto musical que gerou o álbum.

CM: Os rascunhos que você estava produzindo naquele momento, são a essência do disco?
DM: É a essência do disco, são todas as músicas que fiz, a fase que eu estava vivendo esses últimos dois anos, e fiz muita coisa querendo acertar, eu sempre faço música tentando fazer a melhor música possível e muitas delas ficam de verdade na gaveta e nunca vão ser gravadas. Mesmo tendo algumas que nunca mais escuto, mas é legal porque às vezes durante um dia, durante uma semana, durante um mês, aquela música ali que não se tornou nada, ela foi importante para mim porque acreditei que ela ia se tornar algo e só de acreditar nisso me deu gás fazer outras músicas até melhores do que aquela. Então eu acho que a gente também enquanto pessoa que está sempre se cobrando, sempre vendo, inclusive hoje em dia vendo nas redes sociais estereótipos de perfeição, e se cobra demais de que a nossa vida tem que ser igual ao que a gente vê nas redes. O nome Rascunhos é um convite a gente repensar essa ideia de que talvez o dia orgânico, o dia imperfeito, a pessoa cheia de falhas, esse talvez seja o máximo que a gente possa atingir, e o melhor para a gente aproveitar.
CM: O álbum transita por gêneros como bossa nova, neo soul, synth pop e o pop que já é característico da sua carreira. Como foi o processo de equilibrar essas influências e construir uma identidade sonora coesa para o projeto?
DM: Eu acho que todo álbum tenho que contar uma história, eu não vejo o álbum como um conjunto de músicas soltas aleatoriamente. Elas podem até ser músicas feitas em várias fases, em várias maneiras, com vários gêneros, mas eu acho que quando você seleciona esse repertório, você tem que pensar. E foi isso que tentei fazer com esse álbum, eu já sabia mais ou menos qual eram as sensações que eu queria, e fiz algumas músicas de cada universo mais ou menos, daquelas canções eu selecionei algumas, então a gente tem uma música mais romântica que é a “Procurando Rosas”, que queria que fosse uma muito romântica, a gente tem uma música um pouquinho mais ácida que é “Desamor”, músicas animais animadas, como a “Mil Versões” por exemplo, como a “Nem Sei” que são bem mais pop, ali coloquei a “Luzes e Faróis” que é mais melancólica no final, então é como se fosse um resultado de comida, onde você tem um pouquinho de arroz, um pouquinho de proteína, um pouquinho de farofa, pensei dessa forma.
CM: “Mil Versões”, primeiro single do disco, chega acompanhado de um clipe com a participação da sua esposa, Nanda Caroll. Como surgiu a ideia de tê-la nesse projeto e essa troca?
DM: Foi maravilhoso! Estive com a Nanda no estúdio de filmagem, ela foi maravilhosa, arrasou no personagem dela, que tem muito a ver com ela também. Essa música, a princípio era para o disco do Rod, componho muito com ele também para o trabalho dele e ele para o meu, mas ouvindo a letra eu pensei que ela ia ficar muito boa com o ritmo, um pouco mais animado, que não era a proposta inicial, e eu achei que tinha tudo a ver com a Nanda essa letra. Porque fala de uma pessoa que está sempre mudando, e ela por ser influenciadora, por gostar desse universo feminino de maquiagem, de cabelo, está sempre mudando, e não durante meses, a cada dia ela está diferente, hoje de manhã ela está de um jeito e depois de outro. Então falei que tinha tudo a ver com ela, é muito maneiro poder ter ela no clipe, e ela super topou fazer, nunca tinha feito nada do tipo, ficou bastante empolgada, mas também receosa, porque sabe que é o meu primeiro clipe, então ela estava com um pouquinho de medo de não conseguir atingir o que eu queria, mas ela arrasou demais. Eu achei até que eu fui mais um coadjuvante do clipe, e ela que brilhou. Mas foi muito feliz, a equipe toda do clipe foi maravilhosa também. O diretor (Pedro Maciel) e todo mundo, então isso deixa uma memória muito boa.

CM: Como a relação de vocês dois influenciou nas músicas do disco?
DM: Ela é minha musa inspiradora para todas as canções românticas e eu já tinha feito uma música na banda Melim, para minha filha Mel, e esse álbum eu quis dedicar para Nanda. Então todas as músicas que falam de amor, que são positivas, que falam de saudade, todas são dedicadas para Nanda. A “Procurando Rosas” é uma música um pouco mais especial nesse sentido, por ter sido a música que ela entrou no nosso casamento. Ela fez uma surpresa para mim, passou o instrumental para os músicos tocarem, então na entrada da noiva tocou essa música, e deu um novo sentido porque é uma homenagem que fiz para ela e ela fez de volta para mim. Mas, é uma musa inspiradora de todas as canções, e quando eu penso em amor e felicidade eu lembro dela.
CM: O que mais tem te surpreendido nessa nova fase? E o que permanece igual em você como artista?
DM: A vibe fica um pouco mais animada, mas o animado às vezes flerta com a falta de controle porque é mais gente, mais barulho, mais bagunça, então isso é bom por um lado e também desafiador por outro lado. Eu sou geralmente mais calmo no meu dia a dia, sou mais organizado com as coisas, gosto muito do silêncio, o gênero que eu mais escuto é o lofi, sincronizado, quietinho. Então, o lado bom de fazer uma carreira solo, individual, é que as coisas ficam um pouco mais dentro do esperado. É até ruim ficar dentro do controle, é bom deixar as coisas um pouco mais soltas para se surpreender. Mas eu acho que a surpresa é essa, a surpresa é que eu talvez achei que aqui internamente o processo ia ser muito parado, muito calmo, até demais, porque eu sou um pouco assim, mas o processo está sendo tão bonito e tão especial, que mesmo uma entrevista ou os encontros de fãs que a gente fez em São Paulo e no Rio, ficam cheios de significado que preenchem esse silêncio, sabe? Está sendo especial dessa forma, não esperava por isso, eu achei que ia ser tranquilo, mas não achei que ia ficar emocionado com alguns processos que antes eram possíveis. Um pouco mais automáticos pra mim. É algo que é sempre legal, ainda mais pra gente lida com muitas pessoas. Acho que agora as coisas têm uma cara da emoção maior pra mim.

CM: Grande parte das faixas do álbum conta com a assinatura do seu irmão, Rod, de que forma essa parceria influencia a identidade do disco?
DM: O Rod é um compositor incrível, eu brinco que ele é muito coringa no sentido de que consegue se moldar como compositor para fazer qualquer ritmo musical, qualquer tipo de letra, tem esse vocabulário, esse repertório grande, e ao mesmo tempo sabe somar sem querer orientar, porque quando a gente faz um trabalho, agora solo, é importante seguir o que penso, porque eu sou o artista que vai interpretar a canção. Então eu sei mais ou menos qual universo que quero primear, qual mensagem quero passar, mas isso não quer dizer que a ajuda de outros compositores não seja importante, pelo contrário, é muito bem-vinda, mais ou menos você imagina você fazer uma obra no seu closet, ou pintar o seu quarto, você escolhe a cor, escolhe a textura, mas tem pessoas para pintar junto com você, e também falar, “esse tom tá legal, mas ta claro” é mais ou menos isso, e a gente tem essa parceria de composição. A gente começou compondo para outros artistas, pelo Léo Santana, pela Ivete Sangalo, Sorriso Maroto, Ferrugem, várias pessoas de grandes segmentos até antes da banda. Agora que a gente tá em carreira solo só continuou essa parceria que acho importante e que confio demais. Nesse álbum a gente fez outras canções que também não estão ali. Algumas daquelas a gente começou fazendo junto, teve outras que já estavam prontas e eu falei “quero fazer uma parte nova, faz comigo, sei que você vai ser bom pra fazer” e a gente fez, como foi o caso de “Nem Sei”. Ele é o meu camisa 10.
CM: Como foi o seu processo de composição com os outros compositores desse álbum que já são parceiros de longa data?
DM: Eu acho que cada compositor tem uma linguagem. Alguns são focados dentro de um nicho, alguns são mais plurais, e isso não quer dizer que um é melhor que o outro, é só questão de linguagem mesmo. Como eu falei, o Rod, eu acho que é um cara que faz pagode, faz pop, tem muito vocabulário e o Vitão é um cara que eu admiro muito, como cantor e como compositor também. Mas eu já sabia qual é o tipo de música queria fazer com ele, queria fazer uma música dessa pegada mais sensual, acho que ele é muito bom assim, ele tem muita facilidade e eu tinha vontade de ter uma música assim no meu disco, então eu sentei com o Rod e o Vitão, e nem precisei falar insight nenhum que naturalmente a gente foi conduzindo ali, ficou maravilhosa a música. E com os outros compositores é a mesma coisa, o Tibí também, testou muita coisa diferente, mas já conheço cada um, então já sei qual tipo de música que eu sento pra fazer com cada um, um eu vou fazer um popzinho leve, um pop praia, um reggae, e enfim, sou bem estratégico nesse sentido.
CM: O lançamento de “Rascunhos” desperta expectativa para os palcos. Existe alguma movimentação para uma turnê?
DM: Eu cantando em um show as músicas, mas às vezes dormindo penso nisso, penso em show e tal, mas não tenho nada pronto, nada pensado. Tenho evitado um pouco pensar muito nas coisas muito pra frente, porque o primeiro ano que eu fiquei na carreira solo foi um ano de muita ansiedade, talvez essa vontade de ver as músicas prontas, de saber como seria a sonoridade, até conseguir chegar no estado que eu queria. Então hoje tenho tomado muito cuidado com os pensamentos, quando começo a pensar em alguma coisa percebo que vem uma emoção ruim, ou vem uma ansiedade, uma coisa, já tento mudar um pouco o foco, sabe? E acho posso começar a pensar no show agora, depois de lançar o álbum. Antes do lançamento, acho que não era hora ainda de receber alguns convites pra fazer show, eu repassei. Então eu estava esperando só esse lançamento pra começar a pensar nisso.

CM: Como acredita que esse tempo de pausa foi determinante para escrever o “Rascunhos” do jeito que gostaria?
DM: É um processo muito grande a banda, porque você tá numa engrenagem muito acelerada de shows, lançamentos, gravadora e quando você para, toda a inércia desse movimento, ela se atropela. Então você para e fica um vazio, essencial, porque você não tem mais show, fica dentro de casa e as pessoas continuam trabalhando. Isso foi muito difícil pra mim, misturado com essa ansiedade que eu falei, eu tava com um sentimento de luto mesmo assim, que eu não tinha percebido. Até voltei a fazer análise, na terapia, e só depois de alguns meses que ela sugeriu “Você acha que você pode passar por alguma espécie de luto?” E quando eu percebi isso, que na verdade era talvez um luto, não de uma tristeza, mas como se eu tivesse se transportado dez anos antes, vivi dez anos muito intensos, e eu fui transportado depois pro meu quarto, pra minha sala, e eu fico pensando, como eu vim parar aqui? Esse silêncio do começo da carreira individual, traz as perguntas. Foi importante por isso, porque depois que percebi isso no dia que ela falou, o sentimento sumiu. E aí me senti livre, talvez com uma forma de homenagem, de gratidão, por tudo que passou, estou apegado a esse sentimento pra mostrar, ó, banda, você que é muito importante pra minha vida.
Talvez de uma forma saudosista, fiquei preso no sentimento pra poder ter certeza de que tava sendo grato o suficiente pelo que passou. Eu entendi, agora já vou deixar esse sentimento ir, agora vou consumir, vou recomeçar, então foi tudo mais leve. Então foi o tempo certo, não é o tempo que eu queria, eu queria ter lançado muito antes, pra ser sincero. Mas é isso, eu ouvi um ditado assim, que “A porta certa pra gente, não é a porta que se abre, que você nunca imaginou, são as portas que estão ali, que estão abertas, que são a melhor porta.”. Então foi o tempo necessário, que eu consegui fazer, um tempo importante e prefiro olhar os benefícios que teve esses dois anos que eu esperei do que ficar pensando, “e se eu tivesse esperado mais?” Foi importante pra eu ter me cuidado, gosto de meditar, eu busco esse caminho da espiritualização, de reflexão interna. Então foi bom pra mim esse tempo, eu tô tranquilo agora pra lançar o álbum, tô aberto pra qualquer tipo de recepção, se as pessoas gostarem, se talvez não gostarem tanto, pra mim tá tudo bem, porque eu tô satisfeito.




































