A nova capa digital da revista coloca em evidência um tema que dialoga diretamente com os desafios contemporâneos do mundo profissional: a comunicação como ferramenta de liderança, posicionamento e transformação pessoal. Em um cenário cada vez mais dinâmico, em que carreiras se reinventam e trajetórias ganham novos significados ao longo do tempo, falar sobre autenticidade e coragem para se expressar deixou de ser apenas uma habilidade desejável e passou a ser uma competência essencial.
Nesta capa, o destaque é Thiara Palmieri, profissional que construiu uma carreira sólida na televisão e, ao longo dos anos, ampliou sua atuação para o universo da mentoria e do desenvolvimento humano. Em entrevista exclusiva, ela revisita momentos decisivos de sua trajetória, compartilha aprendizados acumulados ao longo de décadas e reflete sobre como a comunicação pode ser um instrumento poderoso para fortalecer identidades e impulsionar mudanças significativas na vida pessoal e profissional.
Ao longo da conversa, Thiara aborda temas sensíveis e atuais, como o medo do julgamento, a dificuldade de se posicionar em ambientes profissionais e a importância da escuta ativa nas relações humanas. A especialista também fala sobre reinvenção, maternidade e espiritualidade como forças que moldaram sua jornada, defendendo uma visão mais ampla sobre carreira e propósito. Uma leitura inspiradora para quem busca crescer, liderar e se comunicar com mais consciência em um mundo que exige cada vez mais clareza, presença e autenticidade.
Thiara, você construiu uma carreira relevante na televisão em uma fase de grande exposição midiática. Que habilidades desenvolvidas naquele período foram fundamentais para sustentar sua trajetória profissional ao longo dos anos?
A coragem de me expor e de não me deixar paralisar pelo julgamento dos outros. Dentro do meu trabalho atual, a maior dificuldade que observo nas pessoas que mentoro está justamente nesse lugar: o medo do julgamento, que impede a exposição. E não falo apenas de aparecer em vídeos, falo também de se posicionar em reuniões, de ter conversas difíceis com a família, de participar de rodas de conversa entre amigos. As pessoas têm muita dificuldade de serem verdadeiras porque temem o julgamento.
Eu, por outro lado, fui criada em um ambiente onde quanto maior a autenticidade, melhor você se desenvolve como profissional. E isso é uma habilidade construída, não é algo inato. É exatamente isso que ensino hoje.

Ao revisitar sua história, desde os trabalhos na TV até a atuação em diferentes áreas da comunicação, qual foi o momento em que você percebeu que sua carreira ganhava um novo significado?
Quando me tornei mãe. Existe uma Thiara antes e outra depois desse momento. A maternidade mudou tudo e continua me transformando dia após dia. A cada nova fase do desenvolvimento do meu filho, eu aprendo mais sobre o meu próprio ofício. Foi a maternidade que me fez repensar as artes cênicas. Foi ela que me levou ao mundo corporativo, pensando no bem-estar da minha família. E também foi ela que me impulsionou a transicionar minha carreira, buscando mais flexibilidade e desenvolvimento pessoal, primeiro para me tornar um ser humano melhor, e depois para reverberar isso para outras pessoas.
Se você tem sucesso no seu micro universo familiar, certamente terá sucesso em tudo o que se dispuser a fazer. Como diz Friedrich Nietzsche: “Quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.” E, com toda certeza, esse porquê é muito claro para mim.
Interromper uma trajetória artística consolidada exige coragem e convicção. O que essa decisão te ensinou sobre identidade profissional e sobre a importância de se reinventar?
Me ensinou que é muito limitante acreditar que somos uma única coisa. Somos seres plurais, os únicos capazes de evoluir, aprender novas habilidades e desenvolver novas linguagens até o último suspiro. Minha identidade profissional vem sendo construída há mais de 30 anos, e ainda assim sinto que estou apenas no começo. Acabei de iniciar um bacharelado em Psicologia e amo saber que posso me tornar quem eu quiser ser. Sou cristã e acredito que existem duas formas de olhar para a vida: uma é enxergar que alguns momentos são milagres; a outra é entender que tudo é milagre. Eu escolho a segunda. Aprendi que Cristo cria possibilidades incríveis para a vida me surpreender, mesmo que não entenda logo de cara, como já compreendi essa estratégia d´Ele, me entrego ao chamado de corpo, alma e coração.

Hoje você atua como mentora e especialista em comunicação. O que mais te surpreendeu ao perceber que muitas pessoas, mesmo talentosas, enfrentam dificuldades para se expressar e se posicionar profissionalmente?
Eu me surpreendo todos os dias. Como mentora de alta liderança, percebo que esse é um caminho bastante solitário. E quando as pessoas se veem sozinhas, é inevitável que, em algum momento, se sintam frágeis, e isso impacta diretamente a comunicação. Elas podem se tornar austeras e autoritárias, ou ir para o extremo oposto: serem negligentes com as próprias opiniões, tentando manter um clima mais leve. Mas é possível se posicionar com firmeza sem gerar um ambiente organizacional negativo. No fim, tudo é uma questão de ajuste – na comunicação e na própria identidade.
No contato direto com profissionais e equipes, quais comportamentos ou padrões de comunicação você identifica como os principais obstáculos para o crescimento dentro das empresas?
A falta de escuta ativa e de curiosidade genuína pelo outro. As pessoas já não têm mais paciência para ouvir. Não se interessam pelo outro, e, esse, é justamente o verdadeiro segredo da boa comunicação e o que nos diferencia como seres humanos. Se você quer ser um bom líder, aprenda a escutar.
Se você quer crescer profissionalmente, aprenda a escutar. E, quando se tornar bom nisso, aprenda também a se posicionar, não de forma autoritária, mas deixando clara a autoridade que você construiu.

Depois de uma carreira marcada pela comunicação em diferentes frentes, o que significa, para você, dominar a própria voz e transformar essa habilidade em ferramenta de liderança e influência?
Significa olhar para o meu passado de forma holística. Eu não sou fragmentos de momentos, eu sou um todo. Sou resultado de todas as minhas escolhas e experiências. Minha autoridade vem do fato de ter aprendido a acumular conhecimento, e não descartá-lo quando, aparentemente, ele deixava de fazer sentido. A comunicação é, hoje, a habilidade mais importante para o ser humano, o nosso maior ativo. Em tempos de IA, é urgente que as pessoas despertem para esse tema e passem a enxergá-lo com a relevância que ele realmente tem.
Tenho o privilégio de fazer da comunicação a minha vida, o meu ofício. E poder transbordar esse conhecimento para outras pessoas me faz sentir completa – mesmo dentro da minha eterna incompletude.




































