A edição nº 125 da Conexão Magazine traz na capa uma artista que recusa o óbvio e abraça a complexidade. Viviane Figueiredo não é apenas um nome no cenário cultural brasileiro, ela é uma força criativa que transita com maestria entre a atuação, a dança e a direção. Formada em Engenharia e estudiosa de Filosofia, Viviane provou que, embora tenha tentado outros caminhos, a arte era um chamado inescapável. Para ela, criar não é apenas uma escolha profissional, mas a forma fundamental de se relacionar com o mundo.
Premiada internacionalmente como Melhor Atriz no DGIFF pelo impactante curta-metragem “A Gota Mais Sutil”, Viviane agora emociona o público paulistano. No último dia 1º de maio, ela subiu ao palco do Teatro Nair Bello para a estreia de “Chez Toi – Em Seu Lugar”. No espetáculo, a atriz mergulha em um desafio técnico e emocional sem precedentes ao dar vida à Laura, uma personagem que exigiu dela não apenas uma entrega dramática profunda, mas também o aprendizado do piano e do canto lírico.
À frente da NYN Realizações, Viviane também exerce seu olhar estratégico como articuladora cultural, defendendo a resistência e a potência do audiovisual e do teatro nacional. Sua trajetória é marcada por um equilíbrio raro entre o rigor técnico de quem conhece as engrenagens por trás das câmeras e a vulnerabilidade necessária para brilhar diante delas. É essa dualidade que faz de sua presença em cena algo magnético, transformando cada silêncio e cada gesto em uma narrativa viva.

Nesta entrevista exclusiva, Viviane Figueiredo detalha o processo de construção de sua nova personagem, relembra os marcos que definiram sua carreira e reflete sobre a importância da empatia e da memória nas relações humanas. Da disciplina da dança clássica aos desafios do realismo mágico no palco, ela revela por que decidiu parar de negociar com sua essência para viver a arte de forma inteira. Confira na íntegra:
Sua trajetória transita entre atuação, dança e direção. Em que momento você percebeu que a arte seria o eixo central da sua vida?
Não foi um momento único. A arte sempre esteve muito presente em mim, antes mesmo de eu compreender isso racionalmente, e depois acabou se impondo como uma necessidade. A dança veio primeiro, aos 3 anos, e a atuação ampliou ainda mais esse universo emocional e criativo. Durante muito tempo, tentei negociar com isso e seguir outros caminhos. Me formei em Engenharia e também estudei Filosofia, mas tudo o que não envolvia criação e expressão me parecia incompleto. Compreendi que eu tinha saído da arte, mas a arte nunca tinha saído de mim.
O momento de virada não aconteceu por uma grande mudança externa, mas por uma soma de pequenos reconhecimentos internos e então vi que eu não conseguia existir de forma mais inteira, com todas as minhas contradições, intensidades e vulnerabilidades se não fosse no caminho da arte, depois disso, nunca mais fez sentido viver pela metade. A partir daí, a arte deixou de ser apenas uma possibilidade. Foi quando parei de tentar conciliar e passei a me comprometer profundamente com esse caminho. A arte passou a ser a forma como eu me relaciono com o mundo e comigo mesma.
Ao longo da carreira, você passou por cinema, teatro e plataformas digitais. O que cada linguagem desperta de diferente em você como artista? Você tem alguma favorita?
Cada linguagem me atravessa de uma maneira muito particular e me convoca de uma forma diferente. O cinema tem um detalhe íntimo, uma delicadeza captura o invisível. Ele me convida para um mergulho mais interno. A câmera capta nuances mínimas, pensamentos que passam pelo olhar, pela respiração. É um exercício de contenção e precisão. Já o teatro exige presença absoluta, troca viva e uma entrega muito intensa no instante. Ele me atravessa de um jeito quase ritualístico. Tem uma pulsação que acontece naquele instante e nunca mais se repete da mesma forma. Já as plataformas digitais têm velocidade, comunicação direta, diálogo com o tempo presente, traz uma relação mais direta com o público. Elas me provocam a pensar narrativa de forma mais ágil e estratégica.
Favorita? Depende do momento da vida. Mas o teatro ocupa um lugar muito especial para mim. Existe algo profundamente humano e mágico na troca direta com a plateia.

Existe algum papel ou projeto que tenha sido um divisor de águas na sua carreira até aqui? Por quê?
Acredito que cada projeto teve sua importância dentro da minha trajetória, porque todos contribuíram para a construção da artista que sou hoje. Cada trabalho deixa marcas, aprendizados e transforma nosso olhar. Mas, sem dúvida, “A Gota Mais Sutil” foi um marco muito importante. Não só pelo reconhecimento, mas porque ali eu entendi uma camada mais profunda da minha entrega. Ele também me deu a oportunidade de contracenar com meu filho o que foi uma experiência emocionante.
“Chez Toi – Em Seu Lugar” também ocupa um lugar muito especial na minha trajetória. Laura me exigiu, tecnicamente e artisticamente de uma maneira muito intensa, me levando a experimentar novos desafios e expandir minhas ferramentas como atriz.
Com esses projetos, passei a entender melhor o meu alcance como artista, mas também a responsabilidade que vem junto com ele.
Na sua trajetória como diretora e assistente de direção, você acompanhou o processo por trás das câmeras. O quanto esse conhecimento técnico da engrenagem da produção facilita ou atrapalha a sua entrega como atriz?
Ajuda muito mais do que atrapalha. Me dá consciência de ritmo, de narrativa, de espaço. Amplia minha visão de conjunto. Compreender a engrenagem da produção me faz olhar o trabalho de forma mais coletiva e me faz respeitar ainda mais cada detalhe que constrói um espetáculo ou um filme. Isso também me permite compreender com mais clareza o caminho que a direção deseja construir e onde quer conduzir a personagem dentro da narrativa. Mas existe um cuidado: silenciar esse olhar técnico no momento da atuação. Porque, em cena, o pensamento excessivo pode engessar e a atuação exige disponibilidade, presença e liberdade. Então é um equilíbrio constante entre saber e esquecer.
O prêmio de Melhor Atriz no DGIFF por “A Gota Mais Sutil” marcou sua trajetória. O que esse reconhecimento representou pessoal e profissionalmente para você?
O prêmio foi muito significativo porque veio como um reconhecimento de um percurso construído com muita dedicação. Pessoalmente, me trouxe mais confiança no meu processo artístico, que muitas vezes é solitário, cheio de dúvidas e incertezas. Foi um acolhimento. Um tipo de validação silenciosa de tudo o que eu vinha construindo, muitas vezes sem garantias. Profissionalmente, aumentou meu senso de responsabilidade e fez com que eu passasse a buscar projetos que realmente me desafiem e transformem.

À frente da NYN Realizações, você também atua como articuladora cultural. Qual é o seu olhar sobre o cenário teatral e audiovisual no Brasil?
Vejo um cenário extremamente criativo e potente, mesmo diante de muitos desafios estruturais. Fazer arte no Brasil exige resistência e persistência, mas também existe uma geração muito inquieta, criando novas linguagens e ocupando espaço e isso me move. Acredito que ainda precisamos de mais incentivo e continuidade nas políticas culturais para que os artistas possam desenvolver seus trabalhos com mais sustentabilidade.
“Chez Toi – Em Seu Lugar” chega em um momento especial da sua trajetória. O que te atraiu inicialmente nesse projeto e nessa história?
O que me atravessou inicialmente foi a profundidade das relações e o lugar da memória, da ausência e dos afetos dentro da narrativa. Me tocou muito a importância de contar uma história como essa nos dias de hoje, porque é uma peça que convida o público a fazer esse exercício tão difícil de praticar a empatia, refletindo sobre a reconstrução dos afetos e das relações através da verdade. Acho que o mundo precisa cada vez mais desse exercício. Além disso, artisticamente, é um trabalho muito desafiador e emocionalmente intenso.
A personagem Laura carrega memória, arte e ausência. Como foi o processo de construir alguém que existe tanto na lembrança quanto na emoção dos outros personagens?
Laura foi construída a partir de muitas camadas e de uma pesquisa muito sensível. Busquei referências na música, na dança, na literatura e nas memórias afetivas. Trabalhei bastante a corporalidade da personagem, especialmente através das mãos, dos gestos, da delicadeza dos movimentos e dos silêncios, a musicalidade e essa sensação de alguém que permanece mesmo na ausência e do passar do tempo. Foi um processo de construção muito intuitivo, mas também muito consciente, tentando encontrar as diferentes camadas emocionais dessa mulher, mas sobretudo aquilo que ela desperta nas outras personagens. Dar vida a Laura é um presente.
Você precisou aprender piano e mergulhar no canto lírico para o papel. Como esses desafios contribuíram para o seu crescimento artístico?
Foi uma das experiências mais desafiadoras da minha carreira. O canto lírico exigiu muita disciplina emocional e técnica, eu jamais imaginei que pudesse cantar e o piano me trouxe uma relação muito forte com escuta e concentração. Mais do que adquirir habilidades, esse processo me colocou novamente no lugar de iniciante, o que é extremamente importante para um artista porque nos tira do conforto e nos coloca em movimento. E, ao mesmo tempo, foi uma experiência muito feliz e transformadora. Desenvolver novas habilidades ampliou minha percepção artística e abriu caminhos que pretendo continuar explorando. São aprendizados que vieram para ficar, sem dúvida.

Para o público que vai assistir a “Chez Toi – Em Seu Lugar”, o que você espera que cada pessoa leve consigo ao sair do teatro?
Espero que o público saia atravessado de alguma forma. Que consiga refletir sobre suas próprias relações, sobre empatia, presença e escuta. Acho que o teatro tem essa capacidade de provocar emoção e reflexão ao mesmo tempo, e desejo que as pessoas saiam um pouco mais sensíveis e mais humanas depois de assistir ao espetáculo, com coragem de olhar para si mesmas e para o outro.
Sobre o espetáculo:
“Chez Toi – Em Seu Lugar” cumpre curta temporada até o dia 07 de junho no Teatro Nair Bello (Shopping Frei Caneca), com sessões às sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h. Ingressos já disponíveis.
Serviço:
“Chez Toi – Em Seu Lugar”
Local:: Teatro Nair Bello (Shopping Frei Caneca)
Endereço: Rua Frei Caneca 569, – Consolação. 201 lugares
Datas: 01/05 até 07/06 (Sexta e sábado 20h e domingo 18h).
Informações: 11 3472 2414
Vendas: https://bileto.sympla.com.br/event/115270/d/360029
Valores: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia).
Duração: 95 min
Classificação: 12 anos









































