Após atravessar vulnerabilidades e processos pessoais com a revelação do EP “Desabafos”, Clara Ribeiro chega ao último capítulo desta era com “Lágrimas”, faixa que ganhou videoclipe nesta quinta-feira (13). O lançamento encerra o ciclo audiovisual do EP e representa um momento de elaboração íntima para a artista: em uma homenagem póstuma ao pai, Clara transforma o luto em narrativa e encontra na própria imagem uma
maneira de falar sobre aquilo que permanece mesmo depois da perda.
“Lágrimas” representa a travessia final que a artista inaugura através do clipe de “Escudo“, e finda a partir de uma transformação. A faixa integra o EP “Desabafos”, lançado em parceria com o produtor Chediak, projeto que reúne quatro músicas atravessadas por sonoridades eletrônicas, drum’n’bass e reggae, ao mesmo tempo em que mergulha em temas como vulnerabilidade, reconhecimento e reconstrução. A composição é assinada por Maui,
que traduz em versos experiências relacionadas à adolescência e ao reconhecimento enquanto pessoa negra.
Tal qual Cecília Meireles narra que aprende a se deixar com as flores para retornar inteira, Clara Ribeiro apresenta sua amplitude lírica e artística com o início-meio-fim universalizado neste projeto. Em seu roteiro, a artista apresenta a dor como memória, mas que já não ocupa o mesmo lugar. Nas cenas, a câmera acompanha a
artista em cada movimento: nas ruas do bairro que cresceu, até chegar em seu habitat natural ao lado das pessoas que a amam e valorizam seu eu. O que muda por fora passa a revelar aquilo que acontece por dentro. O
espaço também assume papel central na narrativa: em meio à vegetação e ao ambiente doméstico, Clara Ribeiro é cercada por pessoas, comida, conversa e presença, construindo uma atmosfera que aproxima o videoclipe de uma memória coletiva. O quintal escolhido deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como território de afeto — um lugar onde a dor pode ser compartilhada e ressignificada.

O clímax da história vem de um ícone principal que materializa essa mudança: o corte de cabelo. De frente às
câmeras, Clara permite podar as madeixas pelas mãos da hairstylist Sarah Catibe, marcando uma passagem
cinematográfica entre diferentes estados emocionais. O gesto, aparentemente simples, ganha outra dimensão
diante da história que a artista carrega: cortar, deixar para trás, mudar a própria aparência e se reconhecer
novamente depois das perdas. Com isso, “Lágrimas” não trata o luto apenas como ausência, mas como
processo.
Assista ao clipe:
Sobre Clara Ribeiro
Nascida e criada na Zona Norte do Rio de Janeiro, Clara Ribeiro construiu uma identidade artística singular ao conectar referências da MPB, samba, reggae, R&B, neo soul e sonoridades afrodiaspóricas a elementos contemporâneos da música eletrônica. Sua obra é marcada por uma escrita íntima, performances intensas e uma busca constante por criar pontes entre ancestralidade, pertencimento e afeto.































