Em período de Copa do Mundo de seleções, os apaixonados por futebol se deleitam com partidas ao vivo protagonizadas pelos melhores jogadores de cada país. Já os amantes da sétima arte também entram no clima ao assistir a séries e filmes que têm o esporte como pano de fundo. Para os brasileiros, uma dica imperdível é a série Brasil 70: A Saga do Tri (2026), da Netflix, produzida pela O2 Filmes. A produção retrata a trajetória da seleção brasileira que conquistou o tricampeonato mundial na Copa do Mundo do México, em 1970.
Além de destacar figuras históricas daquela conquista, como Pelé, Gerson, Tostão e Rivelino, a série traz espaço a um personagem fundamental para a campanha vitoriosa: o goleiro Félix Miéli. Interpretado pelo diretor e ator mineiro Hugo Haddad, de 38 anos, o personagem ganha uma dimensão mais humana, revelando suas inseguranças e desafios durante a preparação para o torneio. O quarto episódio da série é inteiramente dedicado à sua trajetória.
Formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em Belo Horizonte, Hugo Haddad acumula experiências no cinema e no teatro. Sua carreira artística começou na direção, com trabalhos como o documentário Sonhos Concretos (2021). Atualmente, ele divulga o documentário À Sombra do Sol, codirigido por Isadora Canela, que mergulha na astronomia e nos saberes ancestrais dos povos indígenas brasileiros. A obra também homenageia o professor e pesquisador Germano Bruno Afonso, responsável pela pesquisa que deu origem ao projeto e que faleceu em 2021, vítima da Covid-19. Nos palcos, o artista também construiu uma trajetória consistente, atuando em espetáculos como O Espectador Condenado à Morte (2024), apresentado no Teatro da Cidade, em Belo Horizonte, e Das Ding (2025).
Vivendo um excelente momento profissional, Hugo Haddad respondeu a redação da Conexão Magazine sobre a intensa preparação para interpretar o goleiro, desafios das gravações da série, processo de direção do longa-metragem À Sombra do Sol e o atual momento e a diversidade do audiovisual brasileiro.
Confira a entrevista na íntegra abaixo:
Conexão Magazine: O processo seletivo da série reuniu candidatos de diferentes partes do país e durou vários meses. Como você soube da oportunidade e como recebeu a notícia de que havia sido escolhido para o elenco?
Hugo Haddad: O processo seletivo da série foi muito longo. Meses antes de fazer o teste, eu já tinha visto que esse casting estava aberto, mas, por estar envolvido em outro projeto, acabei não priorizando isso. Mas as coisas acontecem no tempo certo, porque eu estava gravando uma cena de um curso e o produtor de elenco responsável pela série estava nesse curso, participando de uma masterclass no último dia. Ele viu a minha cena, fez alguns elogios e comentou alguns pontos do que tinha sentido. Eu senti uma energia muito boa vindo dele. Ele tinha gostado da cena que eu fiz, que era de um personagem muito vulnerável, um paciente recebendo de um médico a notícia de que era infértil. De alguma forma, ele conseguiu ver algo ali que lembrava o Félix.
Quando descobri que ele estava fazendo o casting da série, falei com ele naquele mesmo dia. Disse: “Gabriel, se tiver alguma oportunidade para goleiro, eu gostaria de fazer o teste para algum dos goleiros”. No dia seguinte, o assistente dele me chamou e fui fazer o teste. O primeiro teste foi de atuação e futebol, e eu senti que tinha rolado uma sinergia, que eles tinham gostado. A partir do segundo teste, que já foi com os diretores, eu fiquei extremamente confortável trabalhando com o Paulo Morelli e o Pedro Morelli. Nesse segundo teste, eles já falaram: “Cara, foi muito melhor. Vamos pedir mais cenas para fazer um terceiro teste, baseado no que a Netflix pediu”. No terceiro teste, veio a aprovação. Fiquei extremamente feliz quando recebi a notícia. Tive que abandonar tudo o que estava fazendo para ir filmar a série, mas foi a melhor notícia que eu poderia receber. Foi uma honra para mim.

CM: As gravações aconteceram tanto no Brasil quanto no México, cenário histórico da conquista retratada na série e também uma das sedes da atual Copa do Mundo. Como foi filmar no exterior e vivenciar a recepção do público mexicano ao projeto?
HD: Gravar no México foi uma experiência incrível. Eu já tinha tido experiências filmando fora do Brasil, mas na área de direção, e nunca tinha filmado no México. As pessoas foram super receptivas com a gente. Tanto a equipe de produção quanto os moradores locais são apaixonados pelo Brasil e pela Seleção Brasileira. Da mesma forma que, no Brasil, temos uma memória viva da Copa de 70 e daquela seleção, no México eles também têm essa memória muito presente, porque ouviram muitas histórias e lendas sobre aquela Copa. Como o torneio aconteceu lá, todos conheciam pelo menos um dos jogadores e, claro, todos conheciam o Pelé. Eles nos receberam muito bem.
Filmamos principalmente em Guanajuato, uma cidade pequena, histórica e muito parecida com Minas Gerais. Então, eu me senti em casa. Tivemos apoio da prefeita, que participou de uma das cenas, uma sequência em que nos divertimos dançando na praça. Deu para perceber que eles estavam muito felizes em receber essa produção, principalmente para contar uma história tão emblemática, que também faz parte da história do México. E descobrimos que, na época, eles comemoraram a vitória do Brasil como se fosse uma conquista do próprio México. Depois que a seleção mexicana foi eliminada, muitos mexicanos passaram a torcer pelo Brasil naquela Copa.

CM: Durante a preparação para interpretar Félix, qual foi o maior desafio para alcançar o condicionamento físico e a presença em campo do atleta?
HD: Durante a preparação para interpretar o Félix, o principal desafio foi que se trata de um personagem real. Então, a maior dificuldade foi buscar os trejeitos, analisar a forma física, a postura, a expressão e o rosto dele. Comecei a desenvolver alguns códigos. Percebi, por exemplo, que ele estava quase sempre com a testa bem franzida nas imagens em campo. Esse foi um detalhe que trouxe propositalmente para a composição, às vezes até forçando um pouco mais do que faria naturalmente, para ficar parecido com ele.
A postura também foi algo que tentei replicar bastante, com os ombros levemente voltados para a frente. Eu estava um pouco acima do peso antes de começar a gravar e precisei emagrecer para ficar com um corpo mais parecido com o do Félix. Tivemos dois meses de trabalho constante com nutricionista e treinamento em campo. Isso deixou eu e os outros atores muito preparados fisicamente, com condicionamento suficiente para gravar durante dois meses seguidos as cenas de futebol. Passávamos o dia inteiro em campo, muitas vezes até a noite, gravando. Sinto que toda essa preparação anterior foi fundamental para conseguirmos sustentar esse ritmo.
CM: Você também está passando por outra divulgação, a do documentário “À Sombra do Sol” que você dirigiu. Como foi continuar esse projeto, especialmente após o falecimento de Germano, sem deixar que o trabalho perdesse seu rumo, e apresentar uma história tão brasileira para o público internacional no festival Hot Docs?
HD: Esse documentário, À Sombra do Sol, eu vejo como um presente que recebi. Quando conheci o professor Germano, o sonho dele era fazer um longa-metragem mostrando os 30 anos de pesquisa em astronomia indígena que havia realizado. E eu também tinha o sonho de dirigir meu primeiro longa documental. O professor Germano, que tinha ascendência guarani, passou muitos anos pesquisando diferentes etnias no Brasil. Além de ser muito respeitado, era uma pessoa muito querida por todos aqueles que ele gostaria de retratar no filme.
Após o falecimento dele, durante a pandemia de Covid-19, o projeto ficou pausado, porque não podíamos viajar para gravar. Com a partida dele, o filme acabou se transformando em uma grande homenagem. Fomos atrás de todas as pessoas que ele gostaria de filmar e, quando explicávamos qual era o projeto e quem havia idealizado tudo aquilo, éramos recebidos como amigos de longa data. Todo mundo gostava muito do professor. Sinto que conseguimos honrar o legado dele. Um dos maiores medos do Germano era que esse conhecimento se perdesse em uma ou duas décadas. Com esse longa-metragem, temos a certeza de que esse saber vai durar muito mais tempo. Esse também é o poder do documentário: registrar um momento do mundo e preservar conhecimentos que poderiam desaparecer.

A recepção internacional no Hot Docs foi absurda. Tivemos duas sessões lotadas e dois painéis também completamente cheios. Muitas pessoas se emocionavam e choravam assistindo ao filme. Foi muito interessante perceber como uma história tão local consegue tocar em questões universais. Recebemos e-mails e mensagens pelo Instagram de pessoas dizendo que, depois de assistir ao filme, saíram do cinema e olharam para a Lua pela primeira vez em muito tempo. Algumas relataram que estavam mais presentes e menos ansiosas. Foram reações muito diversas. As pessoas gostaram muito da forma como a narrativa se desenrola. Quando o professor falece no filme, muita gente fica chocada e profundamente impactada.
Também ficamos felizes ao perceber a presença de muitos idosos nas sessões. Foi uma estreia muito especial. O Hot Docs é um dos festivais de documentários mais prestigiados do mundo, então não poderíamos ter imaginado uma estreia melhor.
CM: O audiovisual brasileiro atravessa um momento de grande visibilidade internacional. Como ator e também como diretor, existe mais alguma história, personagem ou aspecto da cultura brasileira que você ainda sonha em levar para o cinema ou para o streaming?
HD: O audiovisual brasileiro está vivendo um momento de muita visibilidade por causa dos filmes incríveis que temos visto nos últimos anos. É interessante perceber que muita gente está resgatando obras das décadas de 60, 70 e 80 e redescobrindo a potência que o Brasil sempre teve no cinema. Mas a verdade é que, sem financiamento, é muito difícil fazer filmes. Essa potência sempre existiu. O que acontece agora é que mais pessoas estão conhecendo a força do cinema brasileiro. Precisamos aproveitar esse momento para trazer novas histórias e novos olhares.
Atualmente, estou na pré-produção do meu primeiro longa-metragem de ficção. A história se passa nas montanhas de Minas Gerais, em uma vila mineradora, e acompanha um operador de explosivos que, dia após dia, ajuda a destruir as montanhas ao redor da própria casa em nome de uma promessa de progresso. O filme fala sobre como essa ideia de progresso afeta os desejos e a vida das pessoas. Tudo muda quando a mineradora decide expandir a área de exploração para o cemitério da vila. Esse é o limite para o personagem. É quando ele percebe que precisa agir e enfrentar essa expansão.

O universo das mineradoras é um cenário extremamente rico para filmes de ficção científica, ação e suspense, mas ainda pouco explorado sob essa perspectiva. Normalmente vemos produções focadas no luto ou nos desastres ambientais, mas existe uma vida inteira acontecendo ao redor dessas comunidades. Quero mostrar os impactos da mineração por meio de uma história que não é necessariamente sobre luto. É muito mais uma história de luta, uma história política. Quero mostrar que é possível fazer um filme de ação nesse contexto, ou até mesmo um sci-fi.
Minha vontade é trazer para o entretenimento histórias que muitas vezes ficam à margem do cinema e do streaming. Também precisamos lembrar que as empresas que mais patrocinam cultura no Brasil são empresas de mineração, e isso não acontece por acaso. De certa forma, existe também um interesse em influenciar quais histórias serão contadas. Por meio de recursos internacionais e de mecanismos de financiamento que estamos acessando, estamos conseguindo colocar esse projeto de pé para contar uma história honesta. Quero fazer um filme que tenha impacto, mas que também seja envolvente e prazeroso de assistir, como vemos em Bacurau, que mostra como uma população consegue se organizar para enfrentar inimigos muito maiores. Esse é o meu próximo filme, e estou muito animado para filmá-lo no ano que vem, em 2027.




































