Em uma fase marcada pela diversidade de projetos e pelo reconhecimento de seu trabalho, a atriz Raquel Villar transita entre diferentes universos na televisão e no cinema. Na série recém-lançada da Globoplay “Emergência 53” (2026), a artista vive Vanessa, uma enfermeira que enfrenta os desafios de uma rotina intensa de atendimentos hospitalares. Ao mesmo tempo, ela integra a sétima temporada de “Impuros” (2018) na Prime Video e o elenco do filme “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba” (2025), ampliando a sua carreira e se destacando com personagens e narrativas diferentes.
Para a atriz, a possibilidade de dar vida a pessoas diferentes é justamente uma das partes mais interessantes da profissão. Em Emergência 53, a construção de Vanessa também passou pela observação do cotidiano de sua mãe, instrumentadora cirúrgica, e pela reflexão sobre as diferenças entre os sistemas de saúde público e privado. A personagem lhe exigiu encontrar um equilíbrio em meio ao caos, uma dinâmica que, embora compartilhe com a atuação a intensidade do momento presente, envolve consequências muito reais para quem trabalha na linha de frente da saúde.
Com uma trajetória que inclui a projeção em “Dom” (2021), e participações nas novelas “Cama de gato” (2009) e “Amor à vida” (2013) na TV Globo e “Cosme e Damião – Quase Santos” (2024) no Globoplay, e experiências profissionais em outros países, a atriz enxerga no tempo uma oportunidade de ampliar seu olhar e ganhar confiança. Em entrevista à Conexão Magazine, fala sobre os desafios de interpretar Vanessa, a chegada a uma produção consolidada como Impuros e a importância de se permitir descobrir novas possibilidades a cada personagem. Também compartilha suas expectativas para o futuro de “Emergência 53″ e para os caminhos que ainda deseja explorar na sua carreira.
Confira a entrevista na íntegra:
Conexão Magazine: Você está vivendo um grande momento na carreira, com “Emergência 53”, “Impuros” e o filme “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba”. Como você enxerga essa fase da sua carreira, e o que os projetos têm em comum pra você?
Raquel Villar: Eu estou num momento de muito trabalho, e isso é um grande privilégio na nossa profissão, que é bastante instável. Então, estou muito feliz por isso. Ao mesmo tempo, são trabalhos muito diferentes entre si, e acho que é justamente isso que me interessa. Cada um me coloca em um universo, numa linguagem, numa vida que não é a minha. E é pra ser uma outra pessoa mesmo, esse que é o barato da brincadeira, da profissão. Sou eu, mas não sou eu, sou a mensageira.
CM: Como foi interpretar a Vanessa, uma enfermeira inserida em uma rotina tão intensa de uma emergência hospitalar?
RV: A Vanessa está inserida nesse ambiente entre a saúde pública e a privada. São ambientes muito distintos, e através dela a gente pode ter reflexões sobre esses diferentes sistemas de saúde. Quais caminhos ela quer seguir e os porquês, por vezes pessoais baseados na emoção, por outras estruturas. Acho que são percepções importantes pra gente pensar. Ela tem muita experiência com a urgência, o que, de alguma forma, se assemelha com a minha profissão, que tem esse momento do agora muito forte, onde nem sempre dá pra voltar e fazer de novo a cena. Mas, no meu caso, a vida ou a morte são uma ficção; no caso dela, não.
Cada chamada de atendimento pode colocar você realmente numa situação-limite. Eu pensava muito em como ter algum controle dentro do descontrole. Era como se, dentro de mim, tudo pudesse sair do lugar, mas eu precisasse encontrar uma forma de conduzir em harmonia com o todo, pois também somos uma equipe. E porque acho que é assim que se dá também esse trabalho: eles estão tentando segurar algo que pode estar totalmente caótico por fora.

CM: Você revelou que se inspirou na sua mãe, que é instrumentadora cirúrgica, para viver a Vanessa. Você já recebeu algum feedback dela sobre a personagem? O que ela achou da série?
RV: Quando estive com a minha mãe, eu não estava procurando algo específico. Eu queria me familiarizar naquele lugar, olhar aquela vida acontecer, o dia a dia e ela dentro dele, o dia a dia dela. Não estava com nenhum caderninho tirando notas, porém consciente daquele mundo diferente. Acho que ouvir o olhar dela sobre esse trabalho tem um significado especial pra mim. É alguém que eu conheço intimamente e que vive essa profissão de verdade.
CM: Você também chega à 7ª temporada de Impuros. Como foi entrar em uma produção que já tem tantos fãs e anos de sintonia e encontrar o seu espaço dentro da série?
RV: Eu cheguei em um universo que já existe, tem consistência, personagens e um público imenso, e me senti muito bem recebida, com espaço pra me experimentar e me encontrar naquele lugar já sólido. Foi uma experiência incrível. A confiança que a direção me deu pra poder construir a personagem foi essencial pra mim. Não era uma história fácil, então fiquei realmente muito feliz com a forma como fomos construindo as cenas. Estou muito animada para ver o resultado.

CM: O começo de sua carreira foi na TV Globo e você ganhou projeção com “Dom” no streaming da Amazon. Olhando para a Raquel do início, o que mudou na profissional que é hoje?
RV: Eu acho que vou mudando como atriz, porque vou mudando como pessoa. O tempo passa, e eu vou vivendo outras coisas que me constroem, até hoje, todo dia. Morei muitos anos fora, trabalhei em outras línguas, em outras culturas, tive experiências muito diferentes do que eu um dia imaginei em ter como atriz e como pessoa.
Sinto que o tempo também me dá mais confiança, acredito mais em mim, e me conheço melhor. Sei que me colocar vulnerável no mundo me ajudou e me conhecer de outras formas também, sei que gosto da sensação de não saber nada sobre uma pessoa ou sobre um lugar, de ter que aprender do zero alguma coisa. E não gosto também quando me pedem como atriz algo do tipo sobre o personagem “queremos ver você!” Não, não sou eu, não é um documentário. Até porque eu sou muito diferente do que eu imagino que as pessoas imaginam sobre mim.
Acho que uma das minhas funções enquanto atriz é a do registro, a gente constrói essas personagens, essas pessoas, então elas tem que ser completamente diferentes entre si. Se eu sei que em uma vida minha eu posso ser muitas, pois o tempo passa e a gente muda, o mesmo acontece com os personagens.

CM: Emergência 53 já teve uma segunda temporada confirmada. O que você gostaria de ver mais da Vanessa em uma nova temporada?
RV: Eu espero que a Vanessa continue podendo existir para além daquilo que a gente já conhece dela. Ela está num momento decisivo da vida, e muitos outros momentos decisivos ainda virão. Espero poder construir um caminho interessante pra ela. Uma personagem nunca está completamente pronta, e muito se dá no momento da filmagem. A gente constrói e, às vezes, outras coisas aparecem. Não é um trabalho individual.































