Mover-se na indústria da música sem a tutela de grandes gravadoras exige mais do que talento: demanda coragem e autenticidade brutal. É exatamente a partir do contraponto entre viver sob os holofotes e resistir à paranoia do julgamento alheio que Gabi Topázio e Renato Mesquita dão o pontapé inicial em uma nova fase artística. Com o lançamento do single “Sold Out“, a dupla independente transforma o próprio cotidiano em manifesto, provando que é possível construir um ecossistema global sustentável ao trocar a perfeição plástica da internet pela conexão real com o público.
O novo lançamento serve como um POV audacioso da vida a dois na música. Trazendo uma estrutura dinâmica que troca de ritmo a cada 45 segundos, passeando do Brazilian Phonk e Pop Urbano ao R&B e House com inspiração na estética dinamarquesa e sul-coreana, a faixa desafia a mesmice do mercado para questionar até onde o excesso de cautela nos impede de viver. Além de abrir portas para um catálogo de mais de 20 canções inéditas de cada um e uma maratona de lançamentos até 2027, o trabalho atual consagra o momento vibrante dos artistas, que celebram suas indicações ao Prêmio Jovem Brasileiro nas categorias de Melhor Cantora e Melhor Cantor.
Nesta entrevista exclusiva, Renato e Gabi abrem o jogo sobre os bastidores da independência, a responsabilidade de blindar o círculo pessoal da superexposição e os desafios de manter a saúde mental diante de um público que questiona até se eles são “de verdade” ou criados por Inteligência Artificial. Um papo direto sobre a arte da sobrevivência digital, a multidisciplinaridade dos palcos e a construção de uma carreira sólida que não pede licença para se manifestar. Confira:
Vocês abordam em “Sold Out” a urgência de viver sem medo do cancelamento ou da superexposição. Como é gerenciar a própria imagem e manter a saúde mental sendo artistas 100% independentes?
Gerenciar a própria imagem e manter a saúde mental sendo artistas 100% independentes acaba sendo muitas vezes uma faca de dois gumes. De um lado, não existe uma pressão em atender as mesmas expectativas de um artista mainstream pois os “riscos” são muito menores. É normal um artista assinado não ser 100% dono de sua própria marca, devendo assim este atender expectativas de investidores, empresas, patrocinadores, muitas pessoas que no início investiram suas marcas também para que tudo aquilo fosse viabilizado. Um possível cancelamento, um possível crítico ou uma fala fora de momento pode fazer com que todo aquele castelo caia por água abaixo, fazendo com que diversas vidas e famílias que dependem do sucesso daquela marca sempre acabam por “pisar em ovos” nunca sabendo exatamente como responder sinceramente a uma pergunta em antes se perguntarem: “Qual corrente coletivista pode ser ofendida com essa resposta. qual classe social ou étnica pode sentir-se humilhada, qual grupo pode ler isso e interpretar como uma indireta?”
Não temos esse peso, pois nosso sucesso, tanto financeiro, quanto de métricas sempre veio diretamente do fruto do valor gerado do nosso laboro. Sendo com o digital como Spotify, quanto com as redes sociais fazendo live streamings ou nossos shows. Somos conhecidos pelo nosso trabalho, pelo nosso repertório ou por papéis que interpretamos, ao contrário de outros artistas que possuem às vezes uma corrente ideológica, uma bandeira ou discurso. Portando, cada passo que damos, seja ele grande ou pequeno, ocorre após obtermos os meios para viabilizar o projeto, o que num âmbito empresarial, há uma clara lucidez em nossa parte.
Porém existe mesmo assim uma grande cautela sobre a nossa própria imagem e o que pode ou não ganhar foco. Por sermos independentes, muitas vezes precisamos proteger familiares e amigos desses acabam não tendo uma superexposição da mídia, pois sabemos que há pessoas que tem justamente a intenção de causar controvérsia ou polêmica para gerar “cliques” então tentamos sempre proteger aqueles que possuem uma vida mais “civil” para que alguns predadores não se beneficiem da inocência de pessoas do nosso círculo pessoal não sejam superexpostas hora por provocações, hora por retirarem de contexto uma fala ou outra e assim elas arranham sua imagem. Afinal não foi a escolha deles viverem a vida que nós escolhemos, portanto temos o dever e a responsabilidade de protegê-los com cautela.
A faixa traz uma mistura audaciosa de pop urbano, funk, phonk, R&B e House, trocando de ritmo a cada 45 segundos no estilo K-pop. Como foi o processo de produção para costurar sonoridades tão distintas sem perder a coesão?
Obrigado por perceber isso! Ficamos muito felizes com essa observação pois na realidade realizar isso é muito mais difícil do que se parece ao dançar na balada essa música (risos). Temos o desejo de trazer qualidade e reparamos que canções clássicas como a dos anos 80 possuíam uma estrutura de intro + refrão + verso + pré-refrão + refrão + verso 2 + solo + ponte + pré-refrão + refrão etc. Hoje em dia, principalmente no Pop Urbano, as canções perderam elementos chaves das canções clássicas, como por exemplo a “ponte”.
Hoje em dia 90% das canções possuem apenas refrão + verso + batida, o que acaba empobrecendo a canção. Como se fossemos ver uma casa sem corredores, quartos, closets. Vimos que o mercado internacional percebeu isso. Artistas como Tyla misturam suas batidas urbanas do Afrobet com R&B, Dancehall e até Soul e queremos fazer isso aqui também.
Com a mistura e a troca de ritmo, o significado da letra também acaba sendo transformado saindo assim daquela tradicional “prisão” musical de “senta, senta senta, joga, joga, joga” oferecendo ao ouvinte outras possibilidades, outras avenidas, outros corredores, mas, ainda assim, na mesma casa. Liricamente isso funciona, e para grupos de dança, academias de fitdance, influencers todos eles podem incorporar novos movimentos, novas escolas e estilos de dança enriquecendo assim nossa criatividade, nossas escolas e nossa cultura em geral.
Construir alcance internacional sem suporte de grandes gravadoras ou labels é um feito raro. Quais foram os maiores obstáculos e as estratégias definitivas para furar a bolha global?
Isso nós devemos ao TikTok. No início de 2020 começamos a fazer livestreamings pois não havia outra forma para conectarmos com outras pessoas. Naquela época, diferente de qualquer outro algoritmo de rede social, todas as vezes que abríamos uma transmissão ao vivo, não seríamos vistos apenas no nosso território, mas sim teríamos um alcance global. Assim, por cinco anos, por quase todos os dias da semana, realizamos mais de 03 lives ao vivo com cerca de 1 hora e 20 minutos cada, montando nossa base de fãs, nossos ouvintes e as oportunidades que nos levaram a poder até realizar uma turnê internacional.
Hoje em dia isso mudou, novas leis e correntes modificaram o algoritmo, mas os laços feitos e as portas abertas durante aquele período até hoje nos possibilitam seguir e continuar com nossa carreira, pois novas portas foram abertas como a televisão, programas ao vivo, e plataformas digitais passam a compor nossos canais de comunicação. Por isso estamos entrando forte agora nos veículos tradicionais de mídia, com videoclipes, gravações de DvD’s ao vivo, documentários e muito mais que está sendo produzido aqui a todo vapor.

Vocês mencionaram que “Sold Out” serve como prévia para uma safra de mais de 20 canções inéditas de cada um. O que podemos esperar esteticamente e liricamente dos novos álbuns?
Muita coisa. Em 2025 havíamos iniciado o segundo semestre com uma distribuidora. Após algumas reuniões o estilo Brasilian Phonk nos foi apresentado e com isso preparamos eu e Gabi mais de 60 faixas. Porém devido a alguma decisão interna, eles decidiram não continuar e precisamos pausar esse projeto.
Foi agora com a nossa entrada na 25 edição do Prêmio Jovem Brasileiro que com esse embalo da exposição midiática que decidimos ir com tudo! Temos um vasto catálogo e por anos trabalhamos como ator e atriz em novelas, publicidade e centenas de campanhas, o que nos dá acesso à exibição e distribuição de obras audiovisuais, fora que possuímos uma boa base de fãs que consomem, apoiam e contribuem com nossos projetos. Com isso, todos os meses vamos prometer lançar um single novo, acompanhado de videoclipes, challenges musicais, e feats com grandes personalidades do mercado.
A ideia do videoclipe nasceu de um comentário de uma fã perguntando se vocês eram “de verdade ou feitos por IA”. Como o avanço da IA na música impacta o trabalho de vocês e a busca pela autenticidade?
Sim, foi engraçado. Com a IA ninguém mais sabe o que é de verdade ou de mentira. Antigamente, se um projeto não era gravado com uma câmera com uma lente profissional em um estúdio ou uma música não era gravada com um microfone de 3 mil reais a falta de qualidade fazia com que as pessoas torcerem o nariz ou sua música mesmo pagando o melhor radialista nunca tocaria. Agora é ao contrário.
Dependendo de uma foto, se usamos uma base de maquiagem ou uma boa luz, as pessoas já começam a especular: “que filtro é esse?” (risos); portanto agora, eu e a Gabi gravamos e mostramos tudo mais “no flagra” possível. Minutos antes de subir no palco, ou na van chegando na cidade. Não importa mais se a imagem é borrada ou contra a luz como um vídeo de lenda urbana do pé-grande. As pessoas querem estar com você, fazendo o que você faz pelo celular, minutos antes, durante e depois,não apenas ter algo plástico e bonito e aprendemos a permitir que eles vejam essa área assim. Às vezes o que é muito banal em nossa vida pessoal pode ser POV super interessante para um fã daquele universo.
Renato, você assina projetos como produtor e ator, e a Gabi traz uma bagagem forte de dança e atuação. Como a formação multidisciplinar de vocês moldou a identidade artística da dupla?
Renato Mesquita: Creio que nenhuma escola que a gente passe acabe como desuso, sabe? Não costumo separar a arte em catálogos do tipo: “Ah, isso é audiovisual, isso é pintura, isso é documentário…” Eu sempre sinto que podemos nos inspirar por qualquer fonte. Às vezes um filme pode me dar uma ideia de escrever uma canção, ou um quadro pode me dar uma ideia de uma paleta de cores para um videoclipe. Acho que o erro é separar as academias, sabe? Sempre uma fonte pode alimentar outra desde que haja um desejo de criar uma arte intencional.
O que importa realmente é permitir que aquilo te transforme, te mude. Cada formação é uma oportunidade de sentir, experimentar e ver aquilo por um outro canal, seja ele sensorial, auditivo, empírico. Vejo como uma academia dos sentidos, para quando a inspiração venha, todo o nosso receptáculo responda e as pessoas vejam o que veem na tela. A identidade artística então é revelada, ela é expressada. Hora através do Pathos, hora através do Logus, hora através do Ethos. Mas minha crença principal é sempre em continuar interessado pela arte. Enquanto o artista é interessado eu creio que ele se torna interessante.
Gabi Topázio: Sempre enxerguei as diferentes linguagens artísticas como grandes oportunidades de aprendizado e inspiração. Acredito no teatro que transforma o espectador, na música que transporta o ouvinte, na dança que instiga, provoca e desperta sensações. No fim, mudam as linguagens, mas acredito que a arte tenha sempre esse propósito em comum: mover alguém de um estado para outro. Talvez por isso eu nunca consiga ouvir música pensando apenas na música. Eu costumo dizer que ouço as canções dançando mentalmente. [risos] Quando escuto uma faixa pela primeira vez e imediatamente tenho vontade de levantar, coreografar, imaginar uma entrada de palco ou como aquele refrão seria vivido por uma multidão, alguma coisa ali me pegou. É quase um termômetro para mim.
Enquanto estou criando, já começo a imaginar o show: “Como eu levaria o público comigo nesse momento? O que aconteceria no palco? Como meu corpo contaria essa história?”. E logo depois vem o audiovisual. Quero saber qual é o mundo daquela música, como ele se parece, quais personagens vivem nele e como fazer alguém assistir a um videoclipe e, por alguns minutos, sentir que entrou em uma realidade diferente da sua. Acho que isso explica muito das minhas referências também. Sempre me fascinaram artistas que não entregam apenas uma canção, mas constroem um imaginário ao redor dela – Karol G, Adéla e a construção dos grupos de K-POP – música, dança, moda, personagem, provocação e audiovisual caminham juntos.
E existe também um lado meu muito apaixonado pelo universo dos quadrinhos, cartoons e da fantasia. Gosto dessa liberdade de criar mundos onde as regras da realidade podem ser quebradas. Tenho vontade de levar cada vez mais isso para os videoclipes: não simplesmente ilustrar uma música, mas abrir uma porta para aquele universo e fazer o espectador entrar nele.

Vocês estão com 4 documentários planejados até 2027. O que motivou a decisão de registrar os bastidores dessa nova era em um formato tão denso?
Temos a sorte de 2026, não estarmos presos a apenas 3 ou 4 emissoras de canais de TV como nos anos 90. No passado, para um artista chegar a se comunicar com seu público, ele tinha apenas a Rede Globo, SBT ou Rede Record… Hoje nós possuímos, o Streaming, Canais de TV a cabo e aplicativos de séries verticais. Simplesmente a dezenas de formatos e acessos. O que nos motiva a decisão então é entender que um artista dessa geração emergente e independente possui centenas de modelos de negócio e muito mais acesso do que qualquer artista mainstream dos anos 60 portanto é preciso ocupar esses locais a fazer ao máximo em nosso limite para trazer e entregar qualidade como eles entregaram. É necessário adotar e se adaptar a esses novos acessos e devolver para o mundo em forma de arte. Sentimos que devemos isso a todos que acreditaram e acreditam em nós mesmo quando tudo dizia que não. Antes era um sonho, agora é uma meta.































