Das estradas do sul da Itália às páginas de Crime e Latido
As vésperas de completar 33 anos de atuação no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Christiane Monnerat celebra um momento especial relembrando uma trajetória marcada pela defesa da justiça, pela proteção dos animais e pelo compromisso com causas que ultrapassam os limites dos tribunais.
Mas existe uma faceta menos conhecida da procuradora de Justiça: a viajante solitária que encontra na Itália um espaço de silêncio, contemplação e inspiração.
Foi justamente longe dos gabinetes, dos processos e da rotina intensa de trabalho que nasceram muitas das reflexões que mais tarde encontrariam lugar em sua literatura. Entre estradas do sul da Itália, igrejas centenárias, pequenas cidades históricas e o azul intenso do Mediterrâneo, Christiane descobriu que algumas histórias começam muito antes de serem escritas.
Seu primeiro livro, Crime e Latido, lançado recentemente, surgiu da experiência acumulada ao longo de décadas de atuação na defesa dos animais. No entanto, a autora revela que a obra também carrega marcas profundas de suas jornadas italianas.
“Quando escrevi o livro, não queria apenas relatar casos ou experiências profissionais. Queria mostrar os sentimentos, os conflitos e os aprendizados que surgem quando estamos diante de situações que envolvem sofrimento, abandono, injustiça e, muitas vezes, a incapacidade humana de olhar para os mais vulneráveis. A literatura me permitiu falar sobre isso de uma forma mais humana e próxima”, afirma.
Viajar sozinha para se encontrar
Ao contrário do que muitos imaginam, as viagens de Christiane pela Itália não seguem o roteiro tradicional do turismo. São jornadas realizadas, em grande parte, sozinha, em um movimento que ela define como um reencontro consigo mesma.
“A Itália exerce sobre mim um fascínio que vai muito além do turismo. É um lugar onde encontro beleza, história, arte, cultura e, principalmente, tempo para observar e refletir. Cada viagem acaba se transformando também em uma jornada interior.”
Em 2025, ela percorreu parte do sul italiano, iniciando pela Calábria e seguindo pela região da Puglia. Sem saber, estava vivendo experiências que mais tarde se tornariam parte da construção emocional e simbólica de Crime e Latido.
“Eu ainda não sabia, mas aquela viagem acabaria deixando marcas profundas na escrita do livro.”
A viagem revelou paisagens deslumbrantes, vilarejos históricos e encontros silenciosos que permaneceram vivos em sua memória muito depois do retorno ao Brasil.
O chamado das Ilhas Eólias
Entre todos os destinos visitados, um ocupa um lugar especial em sua lembrança: o arquipélago das Ilhas Eólias.
Foi em Lipari, durante a celebração da Páscoa, que a escritora viveu uma experiência que hoje considera um dos momentos mais significativos de sua trajetória pessoal e literária.
“Cheguei a Lipari e fui imediatamente conquistada pela beleza daquele arquipélago perdido entre o azul intenso do mar e a imponência dos vulcões. Foi ali que passei a Páscoa, sozinha, mas sem jamais me sentir solitária.”
Em um dos passeios pela ilha, Christiane encontrou uma estátua de Padre Pio. Na ocasião, parecia apenas um detalhe da viagem. Com o passar do tempo, porém, ela compreendeu que aquele encontro carregava um significado muito maior.
“Foi apenas um encontro silencioso, um daqueles episódios aparentemente simples que acontecem durante uma viagem. Mas algumas imagens permanecem conosco sem que entendamos o motivo. Elas continuam trabalhando em silêncio dentro de nós.”
Confira fotos de Lipari, nas Ilhas Eólias:




Quando a inspiração nasce antes da escrita
Para Christiane, a criação literária raramente acontece de forma instantânea. Ela acredita que os livros começam a ser escritos muito antes da primeira palavra ser colocada no papel.
“Aprendi que certas histórias não começam quando acreditamos que começaram. Elas nascem muito antes, em encontros fortuitos, em paisagens que nos emocionam ou em pessoas que cruzam nosso caminho.”
A presença simbólica de Padre Pio, que mais tarde ganharia um significado especial no posfácio de Crime e Latido, tornou-se um exemplo concreto dessa percepção.
“Hoje percebo que a presença de Padre Pio naquela viagem foi uma dessas sementes invisíveis.”
Confira fotos de Panarea:





Ao olhar para trás, a autora reconhece que a construção do livro aconteceu lentamente, alimentada pelas experiências vividas durante suas caminhadas pelo sul da Itália.
“A inspiração para o livro não surgiu de uma única ideia ou de um único momento. Ela foi sendo construída aos poucos, entre estradas italianas, pequenas cidades do sul, igrejas antigas, o mar das Eólias e reflexões que só a solidão de uma viagem é capaz de proporcionar.”
Literatura, memória e contemplação
Talvez seja justamente essa capacidade italiana de preservar a memória que mais encanta Christiane.
“Muitas vezes estou caminhando por uma rua antiga, visitando uma igreja centenária ou simplesmente sentada em um café observando a vida passar, e dali nasce uma reflexão que depois se transforma em um texto. A Itália me inspira porque preserva a memória, valoriza a cultura e convida à contemplação.”
Não por acaso, seus escritos transitam entre lembranças, reflexões humanas, espiritualidade, justiça e compaixão. Temas que também dialogam com sua atuação profissional e com sua conhecida defesa da causa animal.
Hoje, além do trabalho no Ministério Público, Christiane amplia esse diálogo por meio da literatura, de palestras, entrevistas e do projeto Literatura dos Autos, aproximando o universo jurídico das experiências humanas que existem por trás de cada história.
A Itália que ficou nas páginas
Após tantos anos atuando no Ministério Público, Christiane observa sua trajetória com gratidão. Mas é quando fala da Itália que sua voz revela algo que vai além das conquistas profissionais.
Ao revisitar as memórias da Calábria, da Puglia e das Ilhas Eólias, ela compreende que algumas viagens não terminam quando o avião pousa.
Elas continuam vivendo dentro de nós. E foi assim com Crime e Latido.
“O que começou em Lipari, diante daquela estátua de Padre Pio, encontrou seu significado muito tempo depois, quando escrevi as últimas páginas do livro.”
A autora sorri ao recordar o caminho percorrido e resume, em poucas palavras, aquilo que talvez explique a profunda conexão entre suas viagens e sua literatura:
“Por isso, ao olhar para trás, vejo que a história de Crime e Latido não nasceu apenas da inspiração vivida na minha mesa de trabalho. Ela começou a ser construída e encontrou significado na Itália.”
As belezas de Salina:



Pelo relato da autora, de certa forma, essa história continua nascendo. Porque a viagem ainda não havia terminado. A Itália ainda reservava outro encontro na vida da escritora.
“Meses depois, já com Crime e Latido lançado, viajei para Assis, na Úmbria, em pleno inverno. Diferentemente das Ilhas Eólias, cercadas pelo azul intenso do Mediterrâneo, Assis me recebeu envolta em névoa, silêncio e pedra. Era uma viagem sem a pressão de terminar um livro, sem prazos e sem a urgência da escrita. Talvez por isso tenha sido tão importante.
Caminhando pelas ruas estreitas da cidade de São Francisco, compreendi que alguns projetos literários não começam com uma história definida, mas com uma inquietação. O novo livro ainda é apenas uma ideia embrionária, uma semente sem forma clara, mas foi na Úmbria, mais especificamente em Assis, que percebi que ela existia.
A mesma Itália que me ajudou a concluir Crime e Latido agora parecia me convidar para uma nova jornada. Não mais pelas estradas da Calábria, pelas ilhas vulcânicas ou pelas paisagens da Puglia, mas por caminhos mais interiores, onde a reflexão fala mais alto do que a própria narrativa.
Veja também fotos de Ilha de Vulcano:




Talvez seja por isso que a fotografia de Assis esteja na capa desta reportagem. Porque ela representa não apenas um lugar, mas uma passagem: o encerramento de um ciclo e, ao mesmo tempo, o início de outro.
Se as Ilhas Eólias ajudaram a dar significado às últimas páginas de Crime e Latido, foi em Assis que comecei a escutar, ainda muito baixinho, as primeiras palavras do livro que um dia virá.
Ainda não sei exatamente para onde esse novo livro me levará. Mas sei onde comecei a escutá-lo.
Foi entre as colinas, o silêncio e a luz de inverno da Úmbria.”
Os leitores, amigos e admiradores da causa animal continuam acompanhando os passos da escritora por meio do perfil @literaturadosautos.
E tudo indica que, em breve, teremos notícias sobre o novo livro da autora.
Fecha técnica:
Créditos da foto de capa: Leonardo Passero (@leonardo.passero.fotografo)
Outras fotografias: Arquivo pessoal
Assessoria de imprensa: @marciadornellescomunicacao









































