Estampando a nova capa digital da Conexão Magazine, o multifacetado Lucas Tors vive um momento de forte afirmação artística ao navegar entre o cinema e a música. De um lado, ele assume o papel principal no longa-metragem “DAVI – Até o Limite de um Adolescente”, um drama visceral sobre bullying, luto e saúde mental que chega às plataformas de streaming após a equipe superar um golpe financeiro na produção. Do outro, o artista se prepara para o lançamento de seu EP solo “PECADOR“, projeto musical que traz sonoridades sem fronteiras em espanhol e inglês, acompanhado de uma estética andrógina marcante que celebra a libertação de rótulos e dogmas.
No filme, Lucas encara o desafio técnico de conduzir a trama do protagonista sem pronunciar uma única frase em cena, pautando sua atuação inteiramente no olhar, na presença corporal e em uma narração em off impactante. O universo sonoro da obra espelha a mente sufocada do garoto, transformando a dor e o isolamento de Davi em um reflexo duro da sociedade atual e em um convite urgente para que os adultos aprendam a escutar as cicatrizes da juventude sem mascarar a realidade.
Para a nova era na música, o cantor resgata suas memórias de infância na fronteira do Brasil com o Uruguai e suas raízes de ancestralidade árabe para criar faixas com ritmos que vão do reggaeton ao afrobeat. O processo de criação do EP, construído após anos de psicanálise e desconstrução das expectativas sociais, transforma a arte em um exercício de aceitação e amor-próprio, usando o deboche à culpa tradicional para impor respeito ao livre arbítrio e ao feminino.
Em entrevista exclusiva, Lucas Tors abre o jogo sobre a preparação emocional para encarar a atuação silenciosa, a força coletiva nos bastidores do cinema independente e o processo de cura pessoal que molda sua nova fase musical. Um papo sincero e potente sobre pertencimento, a coragem de ser autêntico e a importância de usar a arte para abrir debates e celebrar a liberdade.
Confira agora o bate papo completo:
Como foi o desafio de estrear como protagonista em um filme onde você não fala nenhuma linha de diálogo e precisa transmitir todo o sofrimento do Davi apenas pelo olhar e pela expressão corporal?
Eu enxergo as falas do roteiro como uma das últimas etapas do trabalho de um personagem. Antes da fala vem o sentimento, as motivações por trás do sentimento, os traumas daquele personagem, as lembranças, todo um passado. Viver o Davi foi desafiador, porque é meu primeiro personagem no audiovisual. Eu tinha 18 anos quando rodamos o filme, eu recém estava chegando no Rio de Janeiro, após 18 anos no interior do Rio Grande do Sul, então até nisso Davi me proporcionou como ponto positivo, pois eu ainda tinha um sotaque sulista acentuado, nunca havia trabalhado voz nem coisas do tipo que são super comuns para atores mirins que crescem em cidade grande. Há quem diga que pela minha ascendência libanesa eu tenho olhos grandes, e que isso facilita passar os sentimentos para a câmera (risos).

A produção do filme passou por um momento delicado ao sofrer um golpe financeiro antes de ir para o streaming. De que maneira essa adversidade e a união da equipe independente impactaram a entrega e a verdade que você colocou em cena?
Sim, todos fomos lesados por uma produtora falcatrua no início do projeto. Mas a diretora Rayssa de Castro não soltou a mão de ninguém. A união começou por ela e contagiou positivamente todo o elenco. Alguns foram, outros ficaram, e no final das contas quem tinha que participar sustentou o trabalho. É linda nossa união, desde o set até as relações no dia a dia, todos se apoiam e se admiram.
O filme aborda o bullying, o luto e a dor invisível dos jovens, inspirando-se em tragédias reais brasileiras. Para você, qual é o papel da arte ao expor o acúmulo de perdas de um adolescente sem tentar dar razão à violência, mas buscando sensibilizar os adultos?
Eu enxergo os adultos como meras crianças traumatizadas. A maioria não foi ouvida quando criança. Então temos uma grande parcela, a maioria, que prefere ignorar as crianças porque os mesmos foram ignorados na infância, sem se dar conta que os principais problemas que carrega pro resto de suas vidas são herdados na fase inicial da vida. Davi é um reflexo duro da sociedade atual, um projeto que mostra, sem filtro, as dores dos jovens que são mantidos à margem da sociedade por não agradarem a massa. A escola representa o governo, o poder maior, e os alunos representam a população. O papel da arte é tocar na ferida, mostrar as cicatrizes, sem maquiar a dor. Isso abre espaço para o problema ser debatido e, finalmente, ser levado a uma conversa que busca soluções.
A sonoplastia do longa funciona como um espelho da mente sufocada do Davi. Como foi atuar sabendo que o universo sonoro e a sua narração em off seriam as principais ferramentas para dar tom ao isolamento do personagem?
Foi cansativo emocionalmente. Carregar o sofrimento inteiro do personagem no olhar e na respiração, sem poder expressar uma palavra exige muita energia. Ver o resultado desse trabalho no telão de cinema foi satisfatório demais!
Na infância, você sentia medo do julgamento ao atuar com lápis nos olhos e legging no teatro, e hoje usa croppeds, brincos e maquiagem como ato de afirmação. O que mudou internamente na sua relação com o medo de apanhar ou ser rotulado na rua?
Por anos me preocupei em ser homem, que esqueci de ser humano. Eu tentei vestir roupas que não me enchiam os olhos, fazer cortes de cabelo que não me embelezavam, agir e falar de maneiras que não me representavam, tudo isso pra tentar me encaixar no padrão heteronormativo. Depois de anos tentando e sendo infeliz, cansei. Ninguém vai me amar senão eu mesmo, então percebi que primeiramente eu devo me olhar no espelho e estar satisfeito com o que vejo, pra depois pensar sobre os outros. Isso mudou. A visão de mundo clareou a partir do momento que comecei a enxergar beleza no meu feminino, nos meus traços físicos que não poderiam ser apagados nem por procedimentos estéticos e muito menos por uma barba cheia ou um corte de cabelo que me deixasse mais masculinizado, no sentido ruim. Eu amo ser exatamente do jeitinho que sou, sem mais nem menos.
Além da sua carreira na atuação, você segue como cantor e compositor e se prepara agora para lançar o EP “PECADOR”, onde questiona padrões de gênero e dogmas sociais. Como está sendo esse pré-lançamento? Como estão os preparativos para o novo momento da carreira na música?
Está sendo, até agora, o processo mais gostoso da minha carreira como cantor. E além do canto, eu estou misturando cinema com a música, então tudo o que sei e amo estão sendo utilizados nesse projeto, o que me dá um gás absurdo pra me expressar e entregar o melhor que posso. Sei que Pecador irá chocar, e é exatamente o que eu e minha equipe estamos propondo. Essa quebra de expectativa sobre o que é belo, o que é ser homem, o que é ser um homem árabe numa sociedade colonizada. Meu produtor musical GL Marques tem sido um guia pra mim, meu maior parceiro nessa jornada de autodescoberta dentro da música. Estamos preparando um EP incrível e tenho certeza que tem ritmo para todos os gostos.

Seu novo projeto musical “PECADOR” vem acompanhado de uma estética andrógina marcante. Como a psicanálise e esse processo de cura pessoal influenciaram na escolha de transformar a sua própria imagem em um manifesto contra padrões de gênero?
“Pecador” veio pra impor respeito. Respeito ao feminino, ao livre arbítrio e a liberdade de não precisar se encaixar a rótulos nem a roteiros pré-definidos. A psicanálise me ajudou a entender como eu me enxergo fora dessa performance masculina, que é tão imposta pela sociedade colonizada. O tempo me fez entender que eu não preciso seguir roteiros na vida, até mesmo porque sou ator, já sigo muitos roteiros dentro da profissão. Performar um personagem na vida real é chato demais. Prefiro ser eu mesmo, na minha pura essência. Quem quiser gostar, ótimo, vem junto e me acompanha. Quem não gostar, ótimo também, a arte não foi feita pra agradar a todos.
O título do EP “PECADOR” resgata sua criação católica e crítica narrativas morais tradicionais. Como foi o processo de ressignificar a culpa e o medo da punição divina para construir canções amorosas não heteronormativas?
Ir contra o que me foi ensinado por tantos anos é difícil, mas necessário. Ressignificar os conceitos de certo e errado tem me deixado aliviado em todos os aspectos, me aceitar, me amar, me expressar e gostar do meu próprio trabalho. Por muito tempo fiz músicas que não me preenchiam como artista, e hoje consigo sentir um propósito maior que a música, maior que a vontade de estourar, um sentimento valioso que vale mais que o ouro. O pertencimento junto do amor próprio tem me rodeado de uma maneira absurda, e é exatamente isso que quero pros meus futuros fãs, todos aqueles que forem admirar o meu trabalho, quero que se sintam tão livres quanto eu.

A transição para a carreira solo vem acompanhada de uma sonoridade sem fronteiras, cantada em inglês e espanhol com ritmos como reggaeton, afrobeat e salsa. Como suas memórias na fronteira do Brasil com o Uruguai moldaram essa escolha de cantar em outros idiomas?
Crescer na fronteira com o Uruguai foi uma dádiva. Os rolês na fronteira eram cheios de funk, reggaeton, cumbia e muito portunhol. Impossível eu fugir disso, é o que constitui minha base musical, a maioria das minhas referências são de língua espanhola e árabe, tenho isso vivo no meu flow e pretendo sempre honrar minhas raízes.
Tanto no filme, ao dar voz à saúde mental de um jovem invisibilizado, quanto na música, ao questionar o machismo e os rótulos de gênero, a sua arte carrega um forte tom político. Qual é o principal impacto que você espera causar no público que acompanha essa sua nova era?
Meu maior propósito com esses projetos é trazer uma possibilidade ao debate, normalizar o diferente e a liberdade de cada indivíduo de ser o que é, não o que esperam dele. Quero que o público aprenda a enxergar beleza no que se diz “fora do padrão”, mostrar que existe encanto no diferente, magia no inesperado e principalmente, enfatizar que o feminino é sagrado e devemos respeitá-lo, sempre!




































