Especialista Alessandra Belfort explica por que muitas mulheres sentem que estão sempre em falta, e o que o cérebro tem a ver com isso
No mês do Dia das Mães, período marcado por homenagens e idealizações da maternidade, um sentimento silencioso costuma ganhar força entre muitas mulheres: a sensação de nunca estar fazendo o suficiente.
Embora comum, essa percepção não se resume a uma questão emocional ou comportamental. Segundo especialistas, há um componente cognitivo importante por trás desse padrão, relacionado à forma como o cérebro processa decisões, erros e responsabilidade.
De acordo com a juíza federal e pesquisadora das relações entre emoção e tomada de decisão, Alessandra Belfort, esse sentimento não surge por fragilidade individual, mas por um funcionamento natural do cérebro diante de demandas complexas.
“A mãe que sente que nunca faz o suficiente não está sendo irracional. Ela está respondendo a um sistema de avaliação que o cérebro nunca desliga, o mesmo sistema que usamos para julgar decisões complexas. O problema não é a mãe. É que ninguém ensinou o cérebro a separar autocrítica de autopunição”, explica.
Como o cérebro processa a culpa
Segundo a especialista, a culpa materna está diretamente ligada a áreas cerebrais envolvidas em julgamento e tomada de decisão, especialmente o córtex pré-frontal.
“A culpa ativa o córtex pré-frontal da mesma forma que o julgamento moral. Quando uma mãe pensa ‘eu devia ter feito mais’, o cérebro processa isso como uma ameaça real e dispara mecanismos de defesa. Não é drama. É biologia”, afirma.
Isso ajuda a explicar por que pensamentos aparentemente simples podem gerar tanto desconforto e sobrecarga mental.
O paradoxo das mães mais dedicadas
Um dos pontos que mais chamam atenção, segundo a pesquisadora, é que a culpa tende a ser mais intensa justamente entre mulheres mais envolvidas com a maternidade.
“As mulheres que mais sofrem com essa culpa costumam ser exatamente as mais presentes, as mais dedicadas. É um paradoxo que a psicologia já documentou bem: quanto maior o padrão de exigência interna, maior a percepção de falha, independentemente do desempenho real”, destaca.
Ou seja, não necessariamente há uma falha concreta, mas uma régua interna elevada que dificulta a percepção de suficiência.
Quando a autocrítica vira autopunição
De acordo com Alessandra Belfort, um dos principais desafios está em diferenciar autocrítica saudável de processos mais rígidos e punitivos.
“A autocrítica pode ser útil quando ajuda a ajustar comportamentos. Mas, quando se transforma em autopunição constante, deixa de cumprir esse papel e passa a gerar desgaste emocional”, explica.
Nesse contexto, o cérebro passa a operar em um ciclo contínuo de avaliação negativa, sem necessariamente produzir mudanças práticas.
É possível reduzir esse padrão?
A especialista ressalta que o objetivo não é eliminar completamente a culpa, o que seria irreal, mas aprender a lidar com ela de forma mais funcional.
“Reconhecer que a culpa é um processo cognitivo, e não uma verdade objetiva sobre quem você é como mãe, já é o primeiro movimento de autorregulação. Não se trata de eliminar a culpa, mas de não deixar que ela ocupe o lugar do juízo”, afirma.
Um olhar mais realista sobre a maternidade
Em um contexto em que a maternidade ainda é cercada por expectativas elevadas, muitas vezes reforçadas em datas como o Dia das Mães, entender como o cérebro funciona pode ajudar a trazer mais clareza sobre esses sentimentos.
A sensação de insuficiência, nesse caso, não é necessariamente um reflexo da realidade, mas de como o cérebro interpreta e avalia as próprias decisões.
Para Alessandra Belfort, esse entendimento pode ser um ponto de virada na forma como as mulheres lidam com a própria cobrança. “Quando a mãe entende que esse pensamento de ‘não é suficiente’ é um processo do cérebro, e não um retrato fiel da realidade, ela começa a ganhar espaço para decidir com mais clareza e menos culpa. Isso não muda a maternidade, mas muda completamente a forma de viver a maternidade”, conclui.




































